O músico londrinense Doni Paraná já acompanhou Beto Guedes, esteve no Festival MPB-Shell da Globo e foi convidado para participar das gravações do próximo disco de Zizi Possi
A imagem do músico que vai para as grandes capitais atrás de fama e glória, pertence ao folclore da MPB. Mas se nunca foi fácil, está cada vez mais difícil desembarcar no Rio ou em São Paulo com um violão embaixo do braço.
É o que diz o músico Doni Paraná, 40 anos, um dos mais requisitados atualmente no circuito de shows de Londrina. Doni, ou melhor Donizeti Ribeiro de Souza, já tocou com Beto Guedes, participou do festival MPB-Shell da Globo e se tornou amigo de artistas famosos como Luiz Melodia, Zizi Possi, Moraes Moreira, Fagner e Alceu Valença.
Ostentando um visual rastafari, graças aos dreadlocks nos cabelos, ele voltou à cidade há um ano e três meses. ‘‘Tenho saudades do Baixo Leblon, no Rio, e do Bexiga, em São Paulo’’ – conta. ‘‘Eram pontos de encontro dos músicos da noite. Havia rodas de violão onde todos iam dar uma canja. Hoje em dia, ninguém mais se junta com medo da bandidagem’’.
Doni nasceu na Warta, distrito de Londrina. Saiu daqui para prestar serviço militar em 1978. Um ano depois, decidiu encarar a carreira de músico no Rio de Janeiro. Enquanto estudava no Conservatório Villa-Lobos, ganhava a vida tocando em bares no Calçadão de Copacabana. ‘‘Fiz isso durante muito tempo porque dava grana’’ – recorda.
Aos poucos, foi conhecendo os ilustres da MPB. ‘‘O pessoal sempre fazia festas na casa de um e de outro e aí surgiam os convites para tocar’’ – lembra. A idéia bastante disseminada de que os artistas constituem ‘‘uma raça difícil’’, é reproduzida por ele. ‘‘O humor deles varia de um dia para o outro’’ – afirma. ‘‘Uns bebem demais, outros vivem chapados e alguns evitam contatos com os músicos antes dos shows mandando substitutos para passar o som. O Raul Seixas era assim’’.
Durante um ano e meio, Doni fez parte da banda de apoio do mineiro Beto Guedes. ‘‘Ele vivia chapado’’ – conta, rindo. Em 1980, o músico pisou no palco do Maracanãzinho acompanhando o cantor Raimundo Sodré no festival MPB-Shell da Rede Globo. Sodré ficou na terceira colocação com a canção ‘‘A Massa’’, superada por ‘‘Agonia’’ de Oswaldo Montenegro, e ‘‘Foi Deus quem fez Voc꒒ na interpretação de Amelinha.
Doni não sabe explicar os motivos do sumiço posterior de Sodré. ‘‘Não sei o que houve com ele’’ – diz. ‘‘Talvez o sucesso tenha lhe subido à cabeça. Na época ele andou sofrendo muitas críticas também. O pessoal dizia que sua música era muito parecida com as composições do Gilberto Gil’’. Para o músico, os festivais promovidos por redes de TV são armações de gravadoras.
‘‘As gravadoras usam os festivais para desencalhar os artistas que não fazem sucesso. Sempre rolou isso. Até pagam para o cara entrar. É tudo trambique, é tudo marmelada’’ – afirma. Ao longo dos anos 80, Doni tirou o ganha-pão dando aulas de violão, guitarra e teclados. Tocou muito também para duplas sertanejas e sambistas.
Já na década de 90, acompanhou o músico das Guianas David Hubard, além de ter integrado o grupo Harold & Caribeans cujo currículo inclui um show de abertura para Ziggy Marley em São Paulo. Nos últimos tempos, salienta ele, o mercado começou a se fechar para os músicos profissionais. ‘‘Você só vai se encaixar se tocar pagode, forró e sertanejo. Do contrário, vai ter dificuldades’’ – observa.
Foi justamente a escassez de trabalho que o trouxe de volta a Londrina. Mesmo assim, continua recebendo convites de produtores do eixo Rio-SP. ‘‘No final do mês, ia tocar em duas músicas no novo disco da Zizi Possi, mas as gravações foram adiadas’’ – conta. Bastante solicitado na cidade, Doni toca toda sexta-feira à tarde na loja de instrumentos musicais Sonkey.
Aos sábados pela manhã, pode ser visto em semanas alternadas tocando ao lado de artistas plásticos no Calçadão. Para o segundo semestre, tem planos de gravar um CD com seu grupo Pó de Serra, que é formado ainda pelo contrabaixista Valdir e pelo baterista Eduardo Batistella. Paralelamente, prepara-se para musicar os poemas do livro ‘‘Amarg꒒ de Fernando Martinez.

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