ReproduçãoDurante a escalada, Carla Garcia Cid enfrentou perigos até chegar, quase desmaiada e muito satisfeita, ao pico do AconcáguaEnquanto a maioria de seus amigos estava procurando o melhor point para curtir o verão com um mínimo de preocupações, a londrinense Carla Garcia Cid, 26 anos, ia em direção oposta: se preparava para uma aventura inesquecível, onde o cuidado e a atenção deveriam estar sempre presentes, com o risco da própria vida. Carla queria fazer do verão a estação de sua conquista do Aconcágua, o ponto mais alto das Américas e um dos sete mais altos do mundo. No começo do mês passado, ela e apenas um colega de sua equipe - inicialmente formada por seis pessoas - conseguiram chegar ao topo do pico, a 6.959 metros do nível do mar, um sonho de todo alpinista.
A aventura da londrinense começou três meses antes, quando surgiu a idéia de escalar o pico. Fazendo especialização em Neuropsicologia no Hospital de Clínicas de São Paulo, Carla - que sempre foi apaixonada por alpinismo - mantinha contato com uma turma de escaladores e praticava o esporte sempre que podia, escalando principalmente rochas como a Pedra do Baú, em Campos do Jordão (SP). Entre os amigos, havia apenas um com experiência em alta montanha. ‘‘Ele já tinha tentado escalar o Aconcágua e não tinha conseguido fazer o cume. Queria tentar de novo e deu a idéia para gente’’ - conta.
Os três meses foram gastos na preparação para a aventura, tanto na parte física - com muita corridas e caminhadas para ficar em forma - como na escolha dos melhores equipamentos. ‘‘Além disto, fizemos aulas com o Luiz Makoto, um escalador famoso que já tinha feito o cume do Aconcágua. Ele nos passou toda as orientações necessárias’’ - diz. Com um colega do Hospital de Clínicas, médico e escalador experimentado, procurou também aprender os primeiros socorros específicos para alta montanha. ‘‘Ele queria nos dar um curso mas não tinha tempo disponível. Então procurei pegar as principais instruções’’ - explica.
Climatização Tudo pronto, a equipe formada por seis pessoas, sendo apenas duas mulheres, pagou a permissão para a escalada - cerca de US$120,00 por pessoa, no verão - e começou a aventura que, no total, durou apenas 13 dias, entre escalar e descer. Parece pouco tempo, mas para quem está lá, em uma temperatura ambiente que gira em torno dos 25 graus negativos e com sensação térmica (frio mais vento) na marca dos 50 graus negativos, pode virar uma eternidade. ‘‘Nós até perdemos a noção do tempo. Quando já estávamos na descida, no campo-base, é que fui ver que meu aniversário já tinha passado’’ - conta Carla.
ReproduçãoDepois de escalar quase 7 mil metros no Aconcágua, Carla Garcia Cid sonha com a próxima conquista
Do sopé até o campo-base, o local onde todos os escaladores tem que passar no mínimo quatro dias se climatizando, são apenas 36 quilômetros ou três dias de subida dura. É neste campo-base que fica o hotel mais alto do mundo, o Refúgio, a 4.700 metros de altitude. ‘‘Muitas agências turísticas vendem pacotes para este hotel, mas não é todo mundo que chega até lá. Minha colega de equipe, por exemplo, não conseguiu chegar ao campo-base e desceu antes’’ - explica Carla.
No campo-base, a ordem para os escaladores é descansar e se hidratar, bebendo de três a quatro litros de água por dia. É ali que se reunem várias expedições antes de tentar o cume ou na sua volta. O local serve como um ‘‘último estágio’’ para quem quer se arriscar, onde devem buscar avaliação médica, procurar informações sobre as condições do tempo com os guardas-parques e onde se fica sabendo das últimas novidades: quem conseguiu, quem não; quem morreu, quem ficou doente, etc...‘‘Quando a gente estava lá, antes de subir, ficamos sabendo que, das 15 equipes que tinham tentado fazer o cume naquele período, apenas três tinha conseguido, uma média de apenas 8%’’ - conta.
PerigoA equipe de Carla, que já estava desfalcada, perdeu mais um integrante no campo-base. ‘‘Cerca de 98% das pessoas que chegam até lá tem dores de cabeça, porque o índice de oxigenação no ar, a cinco mil metros de altitude, é de apenas 50%. Se depois de algum tempo aclimatado, as dores de cabeça não cessam, os médicos recomendam que desçam. Foi o que aconteceu com este amigo nosso’’ - explica.
O pior momento, para Carla, foi quando soube que um escalador desconhecido tinha morrido por edema pulmonar. ‘‘No total, foram duas mortes quando a gente estava lá, mas a outra só ficamos sabendo depois. O pessoal evita ficar comentando porque a pressão psicológica é muito forte’’ - diz. Edemas pulmonar e cerebral são as principais causas de morte em montanhas altas, segundo ela. ‘‘Se a pessoa não tomar todos os cuidados necessários, é quase certo um dos dois. Querer avançar muito rápido num ar rarefeito é o principal problema. A questão é que dá uma angústia, uma vontade louca de chegar lá, que a maioria esquece disto’’ - afirma.
Depois de três dias no campo-base, foi o momento de fazer o transporte dos equipamentos até o Nido de Condores, um dos vários acampamentos mantidos quase no cume da montanha, acima da marca dos cinco mil metros. Carregando cerca de 30 quilos em cada mochila (barraca, fogareiro, sacos de dormir e alimentos, principalmente), o transporte é necessário para não cansar em demasia o escalador quando chegar o momento da ascendência. Nesta hora, a equipe de Carla perdeu mais um membro, que não aguentou o ‘‘mal da montanha’’. ‘‘Nós podíamos ter ficado num outro acampamento mais acima, o Berlim, mas lá estava muito frio. Depois ficamos sabendo que foi a melhor escolha pois a outra morte ocorreu lá, por congelamento’’ - conta.
ProblemasCarla e os dois membros remanescentes da equipe tiveram que passar dois dias no Nido de Condores (ninho de condores, em português), dentro de uma barraca. ‘‘Acho que isto é o pior, ter que ficar confinada numa barraca apertada, com outras duas pessoas. A gente tinha até que cozinhar dentro da barraca’’ - lembra. No terceiro dia, resolveram atacar o cume. Tiveram que sair do acampamento às quatro horas da manhã para chegar lá antes de escurecer. ‘‘No total leva-se, em média, 12 horas para subir. Nós levamos 14 horas’’ - diz.
O atraso se deu na Canaleta, localizada na parte final da ascendência. ‘‘Quando se olha para o local pensa: vai ser fácil. E acaba sendo a parte mais difícil’’ - conta. Por quê? A Canaleta fica a 400 metros do cume, antes do Gran Carnero - onde a pressão é a mais baixa registrada em toda montanha -, e é um local plano. ‘‘O detalhe é que é toda formada por uma espécie de pedregulho. Então você dá um passo para frente e escorrega dois para trás. Eu fiquei cinco horas para atravessá-la’’ - conta.
Os maiores problemas de Carla e sua equipe aconteceram na arremetida final para o cume. A água que carregavam congelou e não podiam parar para acender um fogo. Aliada a desidratação, estava a exaustão do esforço final. ‘‘A gente tinha que comer pelo menos oito mil calorias diárias, mas sem água não adiantava nada. Além disso, você não consegue ficar junto da equipe neste estágio. Um sempre acaba ficando na frente dos outros’’ - conta. O resultado foi que um dele ficou na Canelata e apenas Carla e outro rapaz chegaram ao cume. Porém não ilesos. ‘‘Quando cheguei lá no ponto mais alto, nem deu para curtir direito. Eu estava exausta, quase à beira do desmaio e com muita dor no peito. Depois, no Nido de Condores, o médico diagnosticou desidratação e um princípio de edema pulmonar. Tive que dormir lá antes de descer para o campo-base’’ - diz.
ProibiçãoCarla diz isto foi consequência de uma certa imprudência de sua parte. ‘‘Quando percebi que estava passando mal, deveria ter voltado. Mas a vontade era tanta que quis seguir em frente. Tive muita sorte, pois quando se está exausto do jeito que eu estava, a tendência é dormir, não perceber a dificuldade em respirar e morrer com edema pulmonar. Levei uma bronca do médicos e dos companheiros, depois’’ - reconhece.
Os pais de Carla só ficaram sabendo dos perigos da aventura depois que ela terminou. ‘‘Não tinha nem jeito de entrar em contato com eles. Mas, mesmo que tivesse, não falaria nada para não preocupá-los. Quando minha mãe soube dos detalhes, me proibiu de fazer alpinismo’’ - conta.
Valeu a pena tanto esforço? Para Carla, sim. ‘‘Quando a gente está lá em cima, é maravilhoso. Chega-se a ver a circunferência da Terra. É lindo demais’’ - afirma. Mas, segundo ela, também muito desgastante. ‘‘Todo mundo desce falando que nunca mais vai voltar’’ - diz. Decisão final? Não. ‘‘É só dar uma descansada que já se fica pensando em voltar, tentar um novo caminho ou até mesmo uma nova montanha’’ - arrisca. Afinal, o cume do Everest tem só mais mil metros acima do Aconcágua...

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