Ao assumir na semana passada seu romance com uma jornalista baiana, a cantora Daniela Mercury ganhou os holofotes e colocou fogo em um assunto que em pleno século XXI ainda é motivo de debates e polêmicas, apesar de ser praticado desde que o mundo é mundo. No caso da estrela do axé, a sexualidade rompeu a fronteira da música para cair no que até então era de foro íntimo e pessoal. Entretanto, não é de hoje que questões consideradas tabu como homossexualidade, bissexualidade, machismo, feminismo, traição e fetiche saem das camas para ganhar as partituras com as devidas licenças poéticas adotadas por grandes compositores da MPB.
Em 1937, Carmem Miranda já cantava de forma divertida a história do marido que saía vestido de mulher durante o Carnaval retratada por Assis Valente na música "Camisa listrada" ("Rompeu a minha cortina de veludo/Pra fazer uma saia/Abriu meu guarda-roupa e arrancou a combinação/ Até do cabo de vassoura/ Ele fez um estandarte para o seu Cordão").
No mesmo tom carnavalesco, os versos do compositor carioca João Roberto Kelly fazem sucesso desde a década de 60 nas irreverentes marchinhas que colocam em cheque a sexualidade de Josés e Marias ("Olha a cabeleira do Zezé/ será que ele é/ será que ele é?" e "Maria sapatão, sapatão, sapatão/de dia é Maria/ de noite é João).
Com sua habitual delicadeza e elegância, Chico Buarque também falou sobre a homossexualidade feminina nas canções "Mar e Lua" ("Amaram um amor serenado das noturnas praias/ levantavam as saias e se enluaravam de felicidade/ naquela cidade que não tem luar") e "Bárbara" ("Vamos ceder enfim à tentação de nossas bocas cruas/ e mergulhar no poço escuro de nós duas").
Na década de 70, Chico colocou sua arte a serviço da liberação feminina, que ganhou como aliadas as grandes estrelas daquela época. Em plena ditadura militar, Gal Costa cantava a rotina da despudorada personagem da música "Folhetim" ("Se acaso me quiseres/ sou dessas mulheres que só dizem sim") escrita por Chico Buarque. No mesmo período, Fafá de Belém abusava da sensualidade explícita da letra de "Sob Medida" ("Eu sou sua alma gêmea/ Sou sua fêmea/ Seu par, sua irmã/ Eu sou seu incesto/ Sou igual a você/ Eu nasci pra você/Eu não presto"), também composta por Chico.
Nos anos 80, até o transexualismo teve destaque na MPB com o hino composto pelo "Tremendão" em homenagem à Roberta Close, ícone da época. "Não fosse o gogó e os pés a minha lente entrava na dela/ no ponto da mulher nota dez/ dar um close nela", derretia-se o compositor na música "Close", que teve direito até a clipe exibido no programa Fantástico.
A questão "Masculino-Feminino" acabou virando título de composição de Baby Consuelo e Pepeu Gomes ("Ser um homem feminino não fere o meu lado masculino"), e "Calúnias" de Leandro Verdeal, interpretada por Ney Matogrosso ("Telma eu não sou gay/o que falam de mim são calúnias/ meu bem eu parei").
A bissexualidade foi cantada nas décadas seguintes por Marina Lima em "Não estou bem certa" ("Tudo que eu pensei ser pra sempre/ Eu já não sei se é mais/ Penso na menina e fico atenta aos braços do rapaz"), e Ana Carolina na canção "Homens e Mulheres" ("Eu gosto de homens e de mulheres/ E você o que prefere?").
A lista de comportamentos que fogem do convencional é extensa. Longe da hipocrisia que assola certos meios, os compositores da MPB vêm acompanhando de perto e com sensibilidade temas que sempre fizeram parte da sociedade e que continuam causando furor todas as vezes que alguém tenta tirá-los debaixo dos tapetes.

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