NO TOM
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segunda-feira, 25 de março de 2013
por MARCOS ROMAN 
O Brasil é um país de vozes femininas. Enquanto cantoras de várias gerações e estilos dominam a cena musical brasileira, poucos timbres masculinos conseguem um lugar ao sol amparados apenas pela voz. Embora existam vários compositores que cantem, e muito bem,como Caetano, Gil, Djavan e João Bosco, a aposta em novos talentos masculinos é bastante escassa.
É evidente que existem vários aspirantes a ídolos que estão fora dos holofotes e que mereciam o devido reconhecimento, mas olhando as atuais opções do mercado fonográfico é fácil perceber que as gravadoras pouco têm investido em novos e grandes talentos masculinos. Levando-se em conta critérios como extensão vocal, qualidade de emissão, potência, gingado, afinação e outros atributos o time fica ainda mais reduzido.
Para piorar ainda mais esse quadro, morreu na semana passada um dos poucos cantores que conseguia reunir todos esses elementos. Aos 66 anos, Emílio Santiago saiu de cena, deixando a música popular brasileira menos elegante, menos afinada e com menos suingue. O timbre aveludado e a técnica vocal impecável de Emílio fará muita falta no atual cenário dominado por cantores popularescos que fazem dancinhas patéticas, repetem refrões chulos e sem sentido, exibem cabelos e roupas modernas, mas demonstram pouca preocupação com o ouvido do ouvinte.
Além de possuir uma voz irrepreensível de barítono, Emílio Santiago sempre privilegiou bons autores, mesmo na época em que lançava sua pouco original série de aquarelas brasileiras que renderam a ele popularidade e mais de quatro milhões de discos vendidos. A voz de Emílio garantia qualidade, elegância e competência nas composições que tomava para si ao interpretá-las. E o carioca frequentemente colocava seu vozeirão a serviço de compositores da estirpe de Tom Jobim, João Donato, Chico Buarque, Caetano Veloso e Marcos Valle em sua discografia marcada por 25 álbuns e quatro DVDs.
Na ocasião da morte do intérprete de Saigon, um crítico do New York Times afirmou que Emílio tinha a voz mais profunda que a de Nat King Cole. Mesmo utilizada com intuito de enaltecer os recursos vocais do brasileiro, a comparação é dispensável pois tratam-se de registros de voz totalmente distintos, cada uma com sua tessitura, seu alcance e suas peculiaridades. Em comum, ambas foram marcantes, imprescindíveis e carregadas de emoção capaz de levar os ouvintes a um tempo de delicadeza que a cada dia parece estar mais distante da atrocidades diárias que estampam nossa realidade.
Com uma discografia primorosa, Emílio gravou diversos clássicos. Seus últimos álbuns são exemplos materializados do rigor musical que ele perseguia e das doses exatas de serenidade e suingue que imprimia às canções. Desde que foram lançados, os CDs "Bossa Nova" (2000), "Um sorriso nos lábios" (tributo a Gonzaguinha-2001), "De um jeito diferente" (2007) e "Só danço samba" (em homenagem ao rei dos bailes Ed Lincoln - 2010) se tornaram audição obrigatória pelos amantes da boa MPB.



