O Brasil está descobrindo tardiamente o caldeirão de ritmos que é produzido no Pará. Berço do carimbó, do siriá e do tecnobrega, a terra do açaí tem como embaixatriz a cantora Gaby Amarantos, que leva a batida paraense para todos os cantos do país e até para o exterior. Mas muito antes de conhecer a Beyoncé do Pará, como Gaby é chamada, o país já havia se deparado com a pungência da música amazônica através do canto arrebatador de Fafá de Belém.
A cantora estreou nos palcos do Rio de Janeiro em 1975 com a energia de uma pororoca (fenômeno gerado pelo encontro das águas do rio com o mar). Brejeira, sensual e afinadíssima, à época com apenas 19 anos a intérprete apresentava já no seu primeiro álbum, "Tamba Tajá", a diversidade musical de sua terra que vai do maestro clássico Waldemar Henrique a temas folclóricos e indígenas típicos daquela região.
O repertório impecável valorizado pela voz poderosa da estreante conquistaram até o mais temido crítico musical do país, José Carlos Tinhorão, que se rendeu em elogios a ela. A lista de admiradores contou com nomes ilustres como o poeta Vinícius de Moraes, que sobre a paraense escreveu: "cantando com essa voz esplêndida, plena e pungente como o açaí". Milton Nascimento a definiu como uma sereia amazônica. E Elis Regina, ao ser questionada em um programa de rádio sobre o que achava da enxurrada de novas cantoras que estavam surgindo, ressaltou as qualidades vocais da Fafá.
Antes de abandonar o repertório regionalista e enveredar por caminhos extremamente populares e de gosto questionáveis, Fafá gravou excelentes discos na década de 70. Três deles estão sendo relançados em um box editado pela gravadora Universal Music. Intitulada Três Tons de Fafá, a caixa reúne os aclamados álbuns "Água" (1977), "Banho de Cheiro" (1978) e "Estrela Radiante" (1979). Os discos mantêm os encartes originais, mas foram remasterizados e ganharam faixas extras.
Em "Água", além dos paraenses Paulo André e Ruy Barata (autores das músicas "Foi Assim" e "Pauapixuna") e outros compositores regionais, Fafá interpreta Milton Nascimento e Fernando Brant nas canções "Raça" e "Sedução", composta em homenagem a ela. A reedição do álbum ganhou ainda quatro faixas adicionais gravadas por Fafá em compactos e participações especiais: "Emoriô" (Gilberto Gil/João Donato), "Naturalmente" (Caetano Veloso e João Donato),"Não Há Dinheiro que Pague" (Renato Barros) e uma versão em espanhol de "Foi Assim".
O álbum "Banho de Cheiro" traz merengue (Baiúcas Bar), toadas, boleros e sucessos nacionais como "Maria Solidária" (Milton Nascimento e Fernando Brant), "Dentro de Mim Mora um Anjo" (Sueli Costa e Cacaso) e "Tanto" (Beto Guedes). Já o disco "Estrela Radiante" tem como destaque a versão definitiva dada por Fafá à canção "Sob Medida" (Chico Buarque) e belas composições com temas interioranos de Gonzaguinha ("Memória"), Dominguinhos ("Carece de Explicação") e Edyr Proença "Bom Dia, Belém").
Apesar de muitas vezes enveredar por um repertório duvidoso e aquém de suas potencialidades vocais, Fafá merece destaque nesta recente valorização da música paraense. Afinal, há quase quatro décadas ela atrai os holofotes para as canções produzidas na terra que lhe deu inspiração, régua, compasso e até sobrenome artístico.

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