Relegado a um patamar inferior na música popular brasileira há alguns anos, o samba definitivamente sacudiu a poeira e deu a volta por cima. Prova disso é que além de voltar às paradas de sucesso, vários intérpretes da elite da mpb têm dedicado álbuns inteiros ao gênero, como Gilberto Gil a Marisa Monte, passando por Maria Rita e Adriana Calcanhotto. Agora a roda de bambas ganha mais uma adesão de peso. A cantora Zélia Duncan acaba de lançar "Antes do mundo acabar", álbum com o qual entra na folia com o pé direito.
Lançado pela gravadora Biscoito Fino, o disco reúne 14 faixas, sendo 9 delas inéditas e compostas por Zélia em parceria com nomes como Arlindo Cruz ("Dormiu, mas acordou"); Ana Costa ("Alameda de sonho" e "Pra quem sabe amar"); Zeca Baleiro ("Antes do mundo acabar"); Pedro Luís ("Um final") e Xande de Pilares ("Destino tem razão", "No meu país" e "Olha, o dia vem aí"). Zélia ainda empresta seu timbre grave e aveludado a composições de Paulinho da Viola ("Pintou um bode"), Riachão ("Por que você não convida agora"), Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho ("Em cada canto uma esperança") e valoriza a letra de "Vida da minha vida" (Moacyr Luz e Sereno), sucesso de Zeca Pagodinho que ganhou interpretação mais suave com a cantora carioca.
A sonoridade do disco foi delicadamente delineada por Zélia em parceria com a produtora Bia Paes Leme. Sem abrir mão do gingado originado por instrumentos típicos do samba, os arranjos seguem tom minimalista, que colocam em prática a velha máxima de que menos é mais. A acertada opção ajuda a colocar em destaque as belas letras e melodias que artista selecionou com a coesão que lhe é peculiar. Marcado pelo alto astral, o bloco da cantora abre espaço para crônicas urbanas marcadas pelo bom humor com pitadas de romantismo e crítica social.
A entrada da carioca na roda de samba passa longe de tendências de mercado. O flerte de Zélia com o ritmo se tornou mais intenso quando ela selecionava repertório para a gravação do disco "Eu me transformo em outras", álbum de intérprete lançado em 2004 em que recria clássicos da MPB. Desde então já se esperava que ela se rendesse de vez ao estilo dos bambas.
Dona de uma das carreiras artísticas mais coesas da música brasileira, Zélia possui uma inquietude que sempre a leva a explorar novos universos sem perder, no entanto, sua pegada pop. Passeando sempre longe do comodismo e da obviedade, a artista está sempre surpreendendo seu público. Os excelentes songbooks em homenagem a Luiz Tatit ("Totatiando", lançado em 2014) e Itamar Assumpção ("Tudo Esclarecido" - 2012) são prova disso. Com "Antes do fim do mundo" mais uma vez a cantora demonstra que sua versatilidade espontânea e lapidada com muita pesquisa nada tem a ver com o fabricado ecletismo alardeado por determinadas gravadoras em relação a alguns artistas que atiram para todos os lados e quase nunca conseguem acertar seus alvos.

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