Gal Costa é uma guerreira e como uma amazona ela mostrou aos londrinenses no último sábado por que se mantém no olimpo da MPB há quase cinco décadas. Faltam adjetivos para definir a cantora, que consegue renovar seu público desde os anos 60 e ainda soa mais contemporânea que qualquer cantora das novas gerações que assumidamente foram influenciadas por ela. A lista é grande e inclui Marisa Monte, Céu, Tulipa Ruiz e muitas outras.
Convidada de honra do Cabaré do Filo, a baiana apresentou pela primeira vez na cidade o show da turnê Recanto, que tem como base as músicas eletrônicas compostas por Caetano Veloso especialmente para a voz de Gal e deram origem ao CD, lançado em 2011. No palco, não existe nenhum tipo de concessão ou gracejo para agradar o público, apenas um fundo negro, a voz inigualável de Gal e três talentosos músicos (Domenico Lancelotti, na bateria e nos grooves; Bruno di Lullo, no baixo; e Pedro Baby, na guitarra).
Como já havia anunciado em entrevistas, Gal seguiu à risca o mesmo set list do DVD e CD ao vivo de "Recanto ao Vivo", registro do show gravado no Rio de Janeiro e colocado no mercado no início do ano. Dirigido por Caetano Veloso, o espetáculo ganhou diversos prêmios como melhor show do ano de 2012. O trabalho marcou o retorno de Gal ao estilo inovador e emocionado, pois nos últimos anos a cantora vinha fazendo apresentações de violão e voz cantando grandes sucessos como se estivesse ligada no piloto automático.
Na tenda montada para abrigar os shows do Cabaré do Filo, o som que não estava à altura da voz de Gal e os buchichos do público diluíram a dramaticidade do espetáculo, principalmente em músicas de tom intimista como "Da maior importância", "Dom de Iludir" e "Mansidão".
Mas apesar das conversas paralelas inevitáveis em espaços abertos, a plateia se mostrou reverente à Gal e a aplaudia com entusiasmo ao fim de cada magistral interpretação da cantora. Intercalando canções novas e grandes clássicos em sua voz, a baiana foi ovacionada em cena diversas vezes pelo público que a prestigiou mais um memorável show trazido pelo Cabaré do Filo.
Concebida para ser apresentada em teatros, a iluminação de "Recanto" foi elaborada para garantir o clima denso do espetáculo. Mas no espaço improvisado pelo Filo, o recurso cênico também perdeu força. Por outro lado, foi emocionante ver várias gerações cantando em uníssono com Gal canções gravadas por ela há mais de 30 anos, como "Baby", "Força Estranha" e "Folhetim", e se divertir com a imitação que a cantora faz de Tim Maia, na música "Um Dia de Domingo", gravada pelos dois em 1986. Nesta canção Gal deu uma dimensão exata de sua extensão vocal, explorando os já conhecidos agudos e visitando regiões graves numa performance curiosa e arrebatadora.
Detalhes técnicos à parte, a organização do Filo merece parabéns por trazer aos londrinenses artistas que comprovam que ainda existe vida nos palcos além dos megaespetáculos sertanejos que constantemente fazem parte da agenda da cidade.

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