NO TOM Revolta em dó maior
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segunda-feira, 24 de junho de 2013
Marcos Roman 
Extremamente ligados a músicas de várias vertentes e estilos, os brasileiros estão acostumados a criar trilhas sonoras para distintos momentos da vida, dos mais alegres aos mais densos. Tudo começa com as cantigas de ninar para depois passarmos para as de roda, as festivas, as românticas, as nupciais e até as fúnebres.
Nas últimas semanas, diversas canções de protesto que estavam adormecidas há décadas voltaram à tona. Apesar de nenhuma ter sido adotada como hino oficial das manifestações públicas ocorridas em todo o país, várias delas têm sido entoadas em coro pelos que marcham e gritam cobrando diversas melhorias para o Brasil.
"Vem, vamo pra rua/ Pode vir que a festa é sua/ Que o Brasil vai tá gigante/ Grande como nunca se viu." Originalmente composta para embalar as torcidas da Copa das Confederações de 2013, a música "Vem Pra Rua", do grupo O Rappa, faz parte do repertório das mobilizações ocorridas no País. Mas existem várias outras composições que, embora tenham sido inspiradas no período da ditadura militar, se encaixam perfeitamente às reivindicações atuais.
Naquela época, os compositores eram obrigados a criar metáforas para falar da repressão e conseguirem que os censores liberassem suas canções. Jovens politizados formavam torcidas organizadas que deixavam os festivais de música ainda mais competitivos.
Em 1968, na terceira edição do Festival Internacional da Canção, Chico Buarque e Tom Jobim foram vaiados ao apresentar a música "Sabiá". Mesmo tendo um forte cunho político, a canção que dizia "Vou voltar/ Sei que ainda vou voltar/ Não vai ser em vão/ Que fiz tantos planos/ De me enganar" e referia-se aos exilados políticos não ganhou a simpatia da plateia. O público torcia pela composição de Geraldo Vandré, "Pra Não Dizer que Não Falei das Flores", que também convocava o povo: "Vem vamos embora/ Que esperar não é saber/ Quem sabe faz a hora/ Não espera acontecer".
Dois anos mais tarde, para driblar a censura do governo Médici, Chico Buarque afirmou que a canção "Apesar de Você" falava de um romance em que a mulher era muito autoritária. Somente depois do disco lançado é que foram perceber o cunho político de versos como: "Quando chegar o momento/ Esse meu sofrimento vou cobrar com juros. Juro!/ Todo esse amor reprimido/ Esse grito contido/ Esse samba no escuro". Ou então: "Apesar de você/ Amanhã há de ser/ Outro dia/ Você vai ter que ver/ A manhã renascer/ E esbanjar poesia/ Como vai se explicar/ Vendo o céu clarear/ De repente, impunemente/ Como vai abafar/ Nosso coro a cantar/ Na sua frente".
Coube a João Bosco e Adir Blanc a composição da música que seria adotada como o hino da anistia àqueles que haviam sido condenados por crimes políticos. Em 1979, a canção "O Bêbado e a Equilibrista", gravada por Elis Regina, teve seus versos imortalizados ao falar do choro de Marias e Clarices fazendo uma alusão às viúvas do operário Manuel Fiel Filho e do jornalista Vladimir Herzog, mortos durante a ditadura militar. "Que sonha com a volta / Do irmão do Henfil / Com tanta gente que partiu / Num rabo de foguete / Chora! A nossa Pátria Mãe gentil / Choram Marias e Clarices / No solo do Brasil.
Mas a mesma canção também fala da esperança de um país melhor, sentimento que ao lado da revolta tem levado novamente milhões de brasileiros para as ruas. "Mas sei, que uma dor/ Assim pungente/ Não há de ser inutilmente/ A esperança...
Dança na corda bamba /De sombrinha/ E em cada passo/ Dessa linha/ Pode se machucar.../ Azar!/ A esperança equilibrista/ Sabe que o show /De todo artista/ Tem que continuar/".


