O canto da "Cigarra" voltou a ecoar, e com força total. A cantora Simone acaba de lançar pela gravadora Biscoito Fino o ensolarado CD "É Melhor Ser", em que comemora 40 anos de carreira emprestando sua voz somente a canções assinadas por mulheres. O tributo ao sexo nada frágil conta com nomes de peso da MPB que acompanharam a baiana ao longo das quatro décadas no show business.
"Toda pessoa é o que a sua voz é." A vinheta que abre o disco é uma parceria entre Simone e Fernanda Montenegro, fruto de um bilhete enviado pela atriz elogiando a cantora, que musicou o texto como um mantra.
Na sequência, Simone sobe alguns tons com seu timbre grave para cantar o vigoroso rock "Mulher o suficiente", de Alzira Espíndola e Vera Lúcia Motta. Em seguida vem um dos grandes momentos do CD. Canção que passou batida no disco Micróbio do Samba, lançado por Adriana Calcanhoto em 2011, "Aquele plano para me esquecer" se tornou irresistível na versão da baiana.
É exatamente nas músicas mais ritmadas que Simone se mostra em plena forma e com gás para continuar encantando seus fãs. A exemplo do belos sambas "Trégua Suspensa" (Teresa Cristina e Lula Queiroga) e "Acreditar" (Ivone Lara e Délcio Carvalho). A letra emblemática de "Os medos" (Joyce Moreno e Rodolfo Stroeter) é realçada pela pegada rock and roll dada por Simone. Até a já batida "Charme do Mundo" (Marina Lima e Antonio Cícero) ganha frescor no arranjo folk e na voz quente da "Cigarra". Outro destaque é a inédita "Haicai", embalado baião que Simone ganhou de presente de Fátima Guedes.
As canções românticas, marca registrada de Simone, não ficaram fora do disco. Elas aparecem em tons elegantes no bolero "Só se for" (Simone e Zélia Duncan) e em "Descaminhos" (Joanna e Sara Benchimol). O tom arejado do disco se perde apenas nas regravações pouco inspiradas de Mutante (Rita Lee e Roberto de Carvalho) e "Só nos resta viver" (Ângela Ro Ro).
Produzido pelo pianista Leonardo Netto Bia Paes Leme, "É melhor ser" é uma ótima oportunidade das novas gerações conhecerem um dos mais belos timbres da MPB. Dona de uma voz personalíssima e de um repertório impecável nas décadas de 70 e 80, a cantora acabou estereotipada pelas interpretações açucaradas e canções natalinas gravadas na década de 90. Com o novo disco Simone prova que pode e merece muito mais que os rótulos restritivos atribuídos a ela.
No início de carreira a cantora deu voz a vários e talentosos compositores que estavam surgindo na MPB. Foi uma das primeiras a gravar João Bosco, Ivan Lins, Gonzaguinha, entre outros. A baiana, que estreou nos palcos cantando no Olimpia de Paris em uma turnê com músicos brasileiros organizada por Hermínio Bello de Carvalho, volta a presentear seus ouvintes com um trabalho à altura de seu talento.

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