NO TOM Antenado com o seu tempo
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Marcos Roman 
"Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista/O tempo não para/ e no entanto ele nunca envelhece." Os versos da canção "Força Estranha" composta por Caetano Veloso aparecem materializados em Ney Matogrosso. Aos inacreditáveis 72 anos de idade o cantor continua com pleno vigor e com a mesma irreverência e inquietação que se tornaram marcas registradas de sua carreira, lançada em 1973 como vocalista do grupo Secos e Molhados.
O multifacetado artista acaba de lançar o registro em estúdio com o repertório de seu mais recente show: "Atento aos Sinais". O CD, lançado pela gravadora Som Livre, traz 14 das 19 canções que integram o espetáculo que ainda está em turnê pelo Brasil. Atualíssimo e pungente, o set list é dominado por músicas inéditas de jovens compositores pouco conhecidos da grande mídia mesclados com algumas regravações de autores consagrados. Com uma pegada de rock and roll, o disco tem letras que falam de assuntos diversos, dos questionamentos políticos a temas sensuais, românticos e existenciais.
Muito antes das multidões tomarem as ruas do país nas passeatas exigindo mais investimento em diversos setores públicos, Ney já ensaiava a canção "Incêndio", que parece ter sido feita sob medida para os protestos. "Fogo, fogo, fogo, água/ incêndio nas ruas/ bomba, bomba, bomba, praça/ vielas, ratos, figuras nuas", diz um dos versos da música. O tom político também está presente em "Rua de passagem", de Arnaldo Antunes e Lenine, que escreveram "travesti, trabalhador, turista/ solitário, família, casal/ todo mundo tem direito à vida/ todo mundo tem direito igual".
A lista de regravações conta ainda com "Roendo as unhas", samba melancólico de Paulinho da Viola que ganha arranjo festivo na interpretação de Ney. O cantor também resgatou duas pérolas de Itamar Assunção, "Noite Torta" e "Isso não vai ficar assim".
Mas é a nova geração de compositores a responsável pelo ar arejado e antenado do CD. A voz inconfundível de Ney valoriza as inspiradas letras de "Freguês da meia noite" (Criolo), "Tupi Fusão" (Dinho Zampier, André Meira, Pedro Ivo Euzébio e Vitor Pirralho), "Oração" (Dani Black), "Não consigo" (Rafael Rocha), "Pronomes" (Beto Boing e Paulo Passos ), "Todo mundo o tempo todo" (Dan Nakagawa) e a bem humorada "Samba do blackberry" (Rafael Rocha e Alberto Continentino).
Os arranjos do disco são marcados por guitarras, percussão e sopros vigorosos que dão suporte às interpretações extrovertidas de Ney. "Atento aos sinais" é o 43º disco da coesa carreira do cantor, que mostra que além da excelente forma física e vocal continua de olho no presente e mirando o futuro, bem ao contrário de outros artistas contemporâneos seus, que parecem ter engavetado a ousadia e preferem se de dedicar a projetos retrospectivos que passam longe das ondas de criatividade de outrora.


