Maria Bethânia já contou em entrevistas que antigamente quando uma gravadora queria contratá-la ela sempre perguntava se o interesse era gerado pela sua popularidade ou prestígio. Essa indagação demonstra que a intérprete baiana tem plena consciência de que pertence ao seleto time de artistas com trânsito livre tanto entre os intelectuais quanto no coração do público.
Primeira mulher a vender 1 milhão de discos no Brasil com o álbum Álibi (1978), Bethânia ostenta o título de segunda voz feminina com maior vendagem na música brasileira, totalizando mais de 26 milhões de cópias vendidas em 42 anos de carreira. A popularidade da irmã de Caetano Veloso só não é maior porque ela não faz nenhuma concessão para isso. Grava somente o que quer e tem se dedicado a projetos com menor apelo popular.
Mesmo longe das paradas de sucesso, Bethânia mantém uma legião de fãs de várias idades e classes sociais que a idolatram e garantem lotação máxima em todos os seus shows. Os ingressos para os espetáculos estrelados pela Abelha Rainha (codinome que ganhou ao gravar a música "Mel", em 1979) se esgotam poucas horas após serem colocados à venda. A força do canto emocionado e agreste da intérprete e o rigor com que administra a carreira colocaram Bethânia numa posição confortável no cenário musical brasileiro.
O prestígio da cantora junto à classe artística pode ser conferido no DVD "Noite Luzidia", lançado este mês pela gravadora Biscoito Fino. Trata-se da filmagem do espetáculo realizado em 2001, em comemoração aos seus 35 anos de carreira. No palco, uma constelação de compositores a reverenciam. A cantora conseguiu reunir numa mesma noite a nata da MPB. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Lenine, Adriana Calcanhoto, Ana Carolina, Chico César, Vanessa da Mata, Renato Teixeira, Carlos Lyra, Arnaldo Antunes, Dori e Nana Caymmi (representando o pai Dorival) dividem o microfone com a cantora.
Entremeando canções com poesias, como já é habitué em seus shows, Bethânia montou o roteiro do espetáculo com as músicas do CD Maricotinha, lançado naquele ano e temas emblemáticos de sua carreira. Estão presentes no repertório "o primeiro sucesso de Bethânia "De Manhã" (música composta por Caetano e lançada em 1965), "Opinião" (canção de Zé Keti com o qual a baiana atraiu os holofotes para seu canto indomado ao substituir Nara Leão no espetáculo do mesmo nome) e músicas de fases mais populares da cantora, como "As canções que você fez pra mim (Roberto Carlos), "Começaria Outra Vez" e "O que é o que é" (Gonzaguinha).
Destaque para o dueto sensual de Bethânia e Adriana Calcanhoto na canção "Depois de Ter Você" (composta pela convidada), a alegria da baiana ao dividir a cena com Chico Buarque em "Sem Fantasia" (Chico Buarque) e a variação de vozes do trio formado com Caetano Veloso e Vanessa da Mata em "O Canto de Dona Sinhá" (Vanessa da Mata) e o encontro com Gilberto Gil em Lamento Sertanejo (Domingos e Gil).
O registro do espetáculo apresentado no Canecão (antiga casa de shows carioca) não saiu na época em que foi gravado porque houve diversos problemas técnicos gerados por falta de ensaios. No entanto, o valor histórico dos encontros memoráveis falou mais alto e Bethânia finalmente liberou a edição do DVD. Embora a imagem esteja longe do padrão técnico obtido atualmente com alta definição, o áudio mixado em 5.1 canais garante um som satisfatório.
Intérprete que canta com o corpo todo e que frequentemente é associada a um orixá quando está nos palcos, Bethânia tem seu poder de cena reduzido ao dividir os holofotes com os convidados, provavelmente para não ofuscá-los. Mas esse fato não tira o brilho do espetáculo que comprova a força que nunca seca que a baiana traz na garganta onde residem as tempestades e o oásis da senhora dos ventos e trovões.

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