Estrategistas do mercado fonográfico costumam afirmar que o terceiro disco é fundamental para o sucesso ou fracasso na carreira de um artista. Os argumentos usados é de que o primeiro trabalho serve como uma apresentação. O segundo costuma apontar direções mais definidas. E o seguinte indica caminhos reais a serem explorados.
O terceiro álbum de estúdio de Maria Gadú corrobora com essa tese. Em "Guelã", CD que acaba de lançar pelo selo Slap com distribuição pela gravadora Som Livre, a cantora aposta em uma sonoridade totalmente distinta de seu trabalho de estreia, batizado com seu nome e colocado no mercado em 2009. Ao invés de continuar gravando "shimbalaiês" e canções com melodias de fácil assimilação de massa, a paulistana preferiu se arriscar por uma viagem íntima, pautada por sons crus e densos.
Produzido pela própria artista, Guelã é um disco enxuto, no qual a cantora assume a guitarra e o violão e conta apenas com as participações de Doga (percussão), Lancaster Pinto (baixo), Tomaz Lenz (bateria), e Federico Puppi (cello e baixo e coprodução do álbum).
A busca por novos referenciais é perceptível logo na primeira faixa autoral do CD, "Suspiro", na qual a voz de Gadú é ouvida somente após dois minutos de introdução instrumental.
O restante do repertório é formado basicamente por composições autorais que na maioria das vezes abordam temas introspectivos e ligados ao universo feminino e pessoal, a exemplo das faixas "Ela", "Há" e "Vaga", todas assinadas pela cantora. Em meio às odes às mulheres, destaca-se a releitura de "Trovoa", música de Maurício Pereira lançada em 2007. Uma das raras exceções do disco gravada em tons mais leves, "O bloco" (Maria Gadú) foi escolhida como primeiro single do álbum.
A abordagem íntima e particular do trabalho foi expandida até na produção da capa do CD, que tem arte assinada pela cantora em parceria com Lua Leça e Luisa Corsini. "É um disco feito a pouquíssimas mãos. Trabalhei meticulosamente em cima dele dentro de casa, com preciosismo e cuidado. Não é um apanhado de canções, todas elas têm a ver entre si. Nos meus outros lançamentos, desde 2009, trabalhei com pessoas muito boas, mas desta vez senti a necessidade de me desafiar e ver quem eu era. Foi muito legal e diferente. Nesse momento, eu sou exatamente o que está ali no disco", revela a artista em material de divulgação do álbum.
Entre acertos e erros, Maria Gadú se mostra corajosa ao fugir do forte esquema comercial que se formou em torno de sua imagem desde o seu álbum de estreia. "É um disco diferente dos outros. Muita coisa aconteceu nesse meio tempo: viajei, fiz música lá fora e tive a oportunidade de conhecer outros artistas, de outras nacionalidades", explica a cantora sobre as influências presentes no novo e mais coeso trabalho.

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