De maneira geral, o termo ‘‘Kama Sutra’’ está associado diretamente àquilo que ocupa grande parte do pensamento humano. Numa única palavra, sexo. Mais especificamente às possíveis – e impossíveis – posições corporais para a relação sexual. Posições acrobáticas de prazer em que uma boa dose de contorcionismo e criatividade dão o caráter básico.
O Kama Sutra se popularizou no ocidente através de imagens que ilustram as imagináveis posições para o sexo. Tornou-se uma espécie de ‘‘catecismo’’ em que os amantes alimentam o próprio imaginário em nome do desejo. Mas essa idéia, que se tornou cultura de massa a partir dos anos 60, não corresponde, de maneira completa, ao real e histórico sentido.
Kama Sutra é o grande clássico da literatura erótica ocidental. Trata-se de um texto escrito por um erudito chamado Mallinaga Vatsyayana que viveu em algum lugar do norte da Índia entre os séculos I e VI da era cristã. A maioria dos pesquisadores prefere afirmar que Vatsyayana nasceu no século IV, numa importante época do Império Gupta, considera ‘‘idade de ouro’’ da cultura indiana.
Embora quase nada se saiba sobre a existência de Vatsyayana, é possível afirmar que sua obra foi baseada em textos mais antigos que remetem ao florescimento da tradição erótica da civilização hindu nos primeiros séculos a.C.
Escrito em forma de aforismos e versos metrificados (em sânscrito), o Kama Sutra de Vatsyayana é uma manual de conduta ética e moral para a vida sexual dos amantes. Evidenciando o prazer como um dos sentidos do sexo, apresenta a união entre homem e mulher de acordo com os princípios da cultura indiana. Não é um texto sobre o prazer entre pessoas, mas sobre os caminhos que podem conduzir tanto aos prazeres como à elevação da alma e dos costumes.
As imagens gráficas as posições sexuais popularizadas nas últimas décadas não fazem parte da obra original. Essas pinturas são representações posteriores, uma tentativa de visualização das possibilidades de união sexual descritas verbalmente por Vatsyayana. Para ele, a criatividade nas posições eliminariam o florescimento do tédio na relação dos casais através dos anos de convivência. Na realidade, essas descrições correspondem a um pequeno capítulo do Kama Sutra.
Na obra integral, encontram-se vários aforismos que podem provocar polêmica nos dias de hoje. Vale citar alguns: ‘‘Por mais virtuosa que uma mulher pareça ser, ou por mais sensual que na aparência, sua verdadeira natureza se revela no coito.’’. Ou ‘‘A relação sexual pode ser vista como uma espécie de combate, e o erotismo tanto como um concurso como uma perversão.’’; Mais um: ‘‘Uma mulher que não recebe sinais de amor sente-se ferida e se tona hostil, inimiga dos homens. Ela rejeitará todos eles ou irá com todos.’’; Ou ainda esse: ‘‘Para obter dinheiro, a atração sexual pode ser real ou aparente. Em qualquer dos dois casos, a mulher deve fingir que é louca por seu amante. Deve fazer o homem acreditar em sua paixão.’’
Esta última frase corresponde às cortesãs, que merecem uma seção mais extensa que as ‘‘próprias esposas’’ e as ‘‘esposas dos outros’’. Isso evidencia o papel, coroado de uma certa nobreza, dessas damas na sociedade indiana da época. Um papel que pode se estender, tomando as devidas proporções e peculiaridades, para a ‘‘arte do poder’’ dos dias atuais nos sistemas econômicos do ocidente.
O romance ‘‘O Asceta do Desejo’’ do psicólogo indiano Sudhir Kakar, que acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letras, resgata a idéia do Kama Sutra original de maneira ficcional oferecendo um leitura psicanalista da tradição erótica oriental presente em Vatsyayana.
O ponto de partida do livro é instigante: criar uma possível biografia do autor do Kama Sutra. Como não existe nada documentado, nenhum dado sobre sua vida, Sudhir Kakar partiu das informações presentes na clássica obra de Vatsyayana para criar uma biografia ficcional.
O autor coloca um jovem brâmane, atormentado pelo intenso florescimento de seu desejo sexual, como discípulo de Vatsyayana e narrador da história. Reunindo-se diariamente com o mestre, ouvindo suas memórias e discutindo seu pensamento, reconstitui sua existência entre alma e volúpia.
Em ‘‘O Asceta do Desejo’’, Kakar apresenta Vatsyayana como filho de uma cortesã que, junto com a irmã, comandam o ‘‘prostíbulo’’ mais importante da região. Vivendo num ambiente pautado pela sensualidade e sexualidade, impulsionado suas aptidões para o campo erudito e espiritual todo o florescimento de sua sexualidade. Há uma certa leitura psicanalítica na construção dos personagens principais, tanto o suposto Vatsyayana como o jovem discípulo-narrador.
Trata-se de um romance extremamente comum, com histórias de amores impossíveis e tudo mais. Mas possui uma certa reflexão sobre a sexualidade que parte do Kama Sutra, dentro das tradições da época em que foi composto, para discutir, de maneira sutil, a prática amorosa atual. Embora escrito por um homem, ‘‘O Asceta do Desejo’’ apresenta uma discreta apologia às capacidades sentimentais – e eróticas – do universo feminino: ‘‘Além da experiência distinta de carícias e beijos, sou da opinião de que existe diferença entre homens e mulheres. Direi apenas que o corpo da mulher é mais aberto que o do homem. Elas estão acostumadas a receber, a ser invadidas, até mesmo usadas, por seus bebês bem como por seus maridos, e essa circunstância dá um molde diferente ao seu prazer. O corpo receptivo da mulher reflete, na verdade molda, a sua consciência receptiva. Durante o ato do amor ele admite um maior número e uma maior variedade de imagens de união. A imaginação é crucial para a experiência do prazer, e a mulher é naturalmente dotada de uma imaginação corpórea superior a do homem. Mesmo no clímax, quando todos os nascimentos passados e futuros renascimentos se fundem num instante, a abertura da mulher ao dilúvio do prazer é maior e suas águas recuam mais lentamente que as do homem.’’
Entre os pontos altos do romance, vale destacar o fato de Vatsyayana ser descrito como um asceta, ou seja, mesmo nascendo num meio onde a sexualidade era algo determinado, na adolescência opta pela castidade. Além disso, o fato de sua mãe e tia, ambas cortesãs, no momento em assistem suas belezas sedutoras se extinguirem, passam para a tradição da retidão (o Darma) como continuidade natural de suas existências.
Em ‘‘O Asceta do Desejo’’, Vatsyayana, o grande mentor sexual de toda uma cultura, conheceu os prazeres do sexo apenas uma única noite, justamente com a esposa de seu mestre, uma falta imperdoável pelas normas espirituais. Mesmo assim, atingiu, através desta união sexual, uma espécie de iluminação que o conduziria para um vida solitária e aceta até seus últimos dias.
É interessante notar que, o jovem narrador do romance, após ouvir o relato biográfico de seu mestre, realiza caminho semelhante, une-se amorosamente e sexualmente à esposa, também asceta, de Vatsyayana. Como se o desejo não possuísse normas preestabelecidas mesmo dentro de um doutrina ética de união sexual.
Pode-se dizer que Sudhir Kakar realiza uma leitura ocidental da sexualidade humana, mesmo pautando-se pelos princípios históricos orientais. Nesse sentido, confere um valor inestimável à paixão romântica que, mesmo diferente do amor cortês europeu, se espelha na universalidade do coração. Deixa claro que, embora a tradição anuncie que a última parte do corpo humano a envelhecer seja os órgãos genitais, a vida se encarrega de envelhecer por último, até os últimos resquícios de existência, o coração.
•‘‘O Asceta do Desejo’’ , de Sudhir Kakar. Editora Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 332 páginas. Preço: R$ 28,50.

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