No suingue de Donato
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quinta-feira, 19 de setembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
João Donato, um dos precursores da Bossa Nova, ostenta uma das trajetórias mais inusitadas da música popular brasileira. Depois de despontar com seu piano na década de 50, mudou-se para os Estados Unidos e virou lenda no ostracismo. Só foi reaparecer recentemente, na virada do milênio, homenageado com um songbook e um Prêmio Shell.
Na esteira das homenagens, vieram os discos, muitos discos. No ano passado, cinco títulos chegaram às lojas ''Brazilian Time'', ''The Frog'', ''Remando na Raia'', ''Lalá Lay-Ê'' e ''The New Sound of Brazil'' (uma reedição de 1965). Agora, mais dois CDs entopem o mercado. Repentinamente, João Donato tornou-se o músico mais prolífico do país, quebrando o mito de que sua obra era mais intensa do que extensa.
Aos 67 anos, ele já não se intimida em colocar a voz em suas canções. Em ''Managarroba'' (Deck disc), seu novo álbum de inéditas, o pianista canta na maioria das faixas e ainda protagoniza duetos com os convidados ilustres em outras. O curioso é que, durante boa parte de sua carreira, o artista rejeitou a idéia de colocar letras em suas composições.
Só nos anos 70 é que os parceiros-letristas foram aparecendo, transformando suas músicas em sucessos de rádio numa lista que inclui ''Lugar Comum'', ''Amazonas'', ''Até Quem Sabe'', ''Surpresa'' e ''Simples Carinho''. Mas os ouvidos da crítica e dos próprios músicos nunca deixaram de colocar em primeiro plano seu toque no piano, repleto de intervalos e notas alteradas.
João Donato tem muitas histórias para contar. Ele fez parte da turma incompreendida que se viu obrigada a tomar o rumo do aeroporto no final da década de 50, levando as batidas e harmonias da Bossa Nova para os palcos americanos. Lá, tocou com figurões do jazz e da música popular internacional. Quando voltou ao Brasil, tinha mais discos gravados no exterior do que nos catálogos das gravadoras nacionais.
Tom Jobim o chamava de gênio. Era um dos pianistas que o maestro mais gostava de ouvir. Quando era convidado para gravações e não podia participar, Tom indicava Donato para substituí-lo. Em ''Managarroba'', a tônica é a bossa, com picadas de guitarra aqui e ali, executadas por Davi Moraes e Ricardo Silveira. O piano e os suaves backings femininos atravessam todo o CD, que foi produzido por Rafael Ramos.
Em ''Balança'', ele incursiona pela salsa combinando riffs à la Santana, arranjo para metais e os vocais rap do convidado Marcelo D2. O que poderia sugerir uma salada intragável, sobressai como um dos destaques do repertório. Os participantes, aliás, colaboram nos melhores momentos do disco, cujas letras são assinadas em sua maioria por Lysias Enio.
Joyce divide os vocais com o anfitrião em ''E Vamos Lá'', parceria dos dois escrita nos camarins de um show no Japão, onde ambos são cultuados. João Bosco também reveza nos vocais em ''Não Sei Como Foi''. Marisa Monte empolga coadjuvada por efeitos eletrônicos em ''Nunca Mais''. O escorregão fica por conta da faixa-título, um rock desajeitado escalado para fechar disco.
Simultaneamente a ''Managarroba'', as lojas estão recebendo o CD ''O Melhor de João Donato'' (Lumiar Discos), uma compilação que reúne alguns dos sucessos do autor com participação de grandes nomes da música popular brasileira. As faixas foram escolhidas pelo autor em parceria com Almir Chediak, o dono da Lumiar, a gravadora-editora responsável pelos mais importantes lançamentos brasileiros na área de songbook.
Aliás, no songbook dedicado a Donato e publicado três anos atrás, Chediak descreveu a performance do mestre ao piano como inconfundível. ''Quando improvisa, ele consegue ser ao mesmo tempo simples (poucas notas) e sofisticado (extremo bom gosto na escolha das notas)'' salientou no texto de apresentação.
O songbook emprestou a maioria das faixas para ''O Melhor de João Donato''. Para selecionar o repertório, os dois peneiraram mais de 60 gravações. O material garimpado intercala composições instrumentais e músicas cantadas. Em todas as faixas, João Donato atua como pianista e arranjador. O disco abre com ''A Paz'', interpretada por Gilberto Gil, e fecha com ''Muito à Vontade'', recheada com vocalises de Ivan Lins.
A compilação inclui ainda ''O Fundo'' (na voz de Caetano Veloso), ''Everyday'' (com Ed Motta), ''Lua Dourada'' (dueto com os Cariocas) e o deslize da compilação ''A Bruxa de Mentira'' (dueto com Arnaldo Antunes). Apesar das ilustres presenças, o piano suingado de João Donato impõe-se mesmo no bloco de faixas instrumentais, provando que seus dedos continuam ainda cheios de bossa.


