Da Redação
Um encontro entre o Caribe e o morro carioca. Na terça-feira passada os veteranos do samba do Rio de Janeiro se reuniram para assistir ao documentário sobre o Buena Vista Social Club, o grupo de músicos cubanos revelado por Ry Cooder.
A velha guarda do samba se deslocou até o cinema Odeon, na Cinelândia, para assistir ao filme dirigido por Wim Wenders. Entre os presentes, estavam nomes como Walter Alfaiate, Nelson Sargento, Dona Ivone Lara e Noca da Portela. Durante a projeção, a proximidade entre a história dos músicos cubanos e a dos sambistas brasileiros se tornou evidente.
O cotidiano cubano, no documentário, se assemelha muito ao do povo que vive no morro, se deslocando em ônibus lotados, dedicando-se aos santos cuidadosamente colocados em um altar, a boemia, a bebida, e as residências pobres. A identificação também se deu pelo amor e respeito à música.
Muita gente ficou emocionada. Walter Alfaiate, por exemplo, que só se tornou relativamente conhecido por causa do disco ‘‘Olha A풒, lançado no ano passado – o único de sua longa carreira, elogiou. O sambista reconheceu as semelhanças e até se comparou a um dos cubanos: ‘‘Acho que pareço com o Compay Segundo, principalmente no gosto pelas mulheres’’, brincou. O cubano Compay tem cinco filhos e, com 90 anos, quer mais um. ‘‘Nós todos nos identificamos porque temos, brasileiros e cubanos, a música como um alento para as nossa vidas. Não há sambista que não se emocione’’, completa.
O roqueiro Roberto Frejat, que também estava presente, apreciou o documentário. Fã do trabalho de Ry Cooder, Frejat defende a diversidade brasileira, segundo ele, superior à caribenha.
O ritmo que marca todo o documentário é chamado de son, a música que predominava nos bares de Havana antes que a salsa tomasse posse do lugar, na Cuba anterior a Fidel Castro. O son ganhava interpretação de nomes como Ibrahim Ferrer, cantor, Rubén Gonzales, pianista, e Omara Portuondo, cantora de boleros.
Com a reunião proporcionada por Ry Cooder, esses músicos relembraram o estilo em diversas canções e depoimentos. Não há discussão política ou questionamentos ao regime, o que importa – e foi preservado por Wim Wenders – é uma música que, por pouco, não se extinguiu.
A platéia também contou com Nelson Sargento, que se lembrou do amigo Carlos Cachaça e de outros que morreram sem reconhecimento: ‘‘Enquanto eu assistia ao filme, só me lembrava de Carlos Cachaça e de muitos outros que não tiveram o reconhecimento devido enquanto foram vivos’’, disse Sargento na saída da sessão.
A emoção foi tanta que não deu para segurar. No final, os veteranos receberam charutos e drinks cubanos. Em pouco tempo o samba tomou conta do cinema com Décio Carvalho, Marquinhos, Walter Alfaiate e Genuíno da Mangueira. O primeiro samba da escola, ‘‘A Mangueira é Rainha’’, composto por Cartola, foi lembrado.
Para Noca da Portela, o filme foi mais do que a apresentação de um gênero: o son, como o samba, seria uma forma de resistência. ‘‘Sou comunista de carteirinha. Quero que meus filhos assistam a algo diferente dos enlatados americanos. Isso sim é um filme. A resistência cultural é uma arma muito poderosa.’’

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