Dizem que Boipeba é hoje o que Morro de São Paulo era há dez anos: um lugarejo tranquilo onde impera o ritmo da natureza. O maior medo dos moradores é que a ilha vire o que sua vizinha é atualmente: uma vila cuja beleza natural foi tão explorada pelo turismo que descaracterizou o perfil da comunidade. Em vez de praias vazias e limpas, um amontoado de barraquinhas à beira-mar lotadas de visitantes que, quando vão embora, deixam uma montanha de sujeira.
E o lixo é só um dos problemas que aparece junto com o crescimento turístico da região. Esses povoados sofrem com a falta de informação e saneamento básico, como uma rede de esgoto para citar alguns. Foi pensando em preservar o potencial ecológico da ilha sem impedir o desenvolvimento local que o alemão Stefan Achim Ruder fundou, em 1995, a Associação de Moradores e Amigos de Boipeba (Amabo), que já conta com mais de 180 associados, entre donos de pousadas e moradores.
''Definitivamente não queremos ficar como Morro'', diz o criador da Amabo. ''Nosso maior objetivo é cultivar o espírito de Boipeba e fazer com que continue sendo um vilarejo de poucas famílias que recebe alguns turistas.''
Lá as palavras de ordem são desenvolvimento sustentável que tem até sua versão de proposta oficial chamada de Desibo (Desenvolvimento Sustentável da Ilha de Boipeba). ''Temos de ter sustentação econômica e para isso precisamos atrair mais turistas. Porém, antes é preciso preparar a comunidade para o turismo e, principalmente, temos de ter sustentação ambiental para amenizar os impactos ecológicos causados pelo turismo.''
A pousada de Achim é um exemplo do que ele pretende implantar em toda a ilha. ''Fazemos tratamento seletivo do lixo e construímos um sistema de esgoto que não polui o ambiente.''
Por lei, a região da Ilha de Tinharé e de Boipeba está protegida pois é considerada Área de Preservação Ambiental (APA) desde junho de 1992, segundo decreto nº 1.240. Ou seja, suas praias, arrecifes, manguezais, matas, rios e fauna não podem ser alterados sem autorização. É aí que entra a ação da Amabo. Além de colaborar para a administração da APA, a associação criou projetos de educação ambiental para a população. O resultado está no discurso do moradores. ''Turistas estão aumentando aos poucos, mas gosto do sossego e da natureza. Prefiro mil vezes a tranquilidade que tenho a ganhar um monte de dinheiro'', diz o guia turístico Marcos.
A Amabo também promove eventos culturais e cursos, além de colaborar com doações de medicamentos e materiais educativos. Na lista das últimas novidades está a construção de um atracadouro no povoado Velha Boipeba e a restauração do telhado da Igreja do Divino Espírito Santo.
O mais novo projeto? Um mapeamento e cadastramento de árvores importantes da ilha e a criação de um fundo destinado para o plantio de novas árvores. ''Nosso sonho não é fazer uma grande coisa, mas saber que estamos caminhando para o lado certo'', conclui Achim. Disso ninguém que já esteve em Boipeba tem dúvidas.

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