Não poderiam faltar baldes e mais baldes de cerveja para lubrificar dedos e cordas vocais. Mas o bom resultado não se deve à condição etílica dos participantes e, sim, pela verdade que soa em ‘‘Samba de Raiz - Ao Vivo’’, mesmo que o formato não seja original. O disco, lançado pela Deck Disc, reproduz toda a espontaneidade e vibração das autênticas rodas-de-samba cariocas onde é um sacrilégio a utilização de instrumentos elétricos. Banjo, reco-reco, pandeiro, cavaco, violão, tan-tan, surdo e ganzá homologam o trabalho em que o samba é tratado com purismo.
Apelo comercial o disco tem. No entanto, nenhum grande figurão faz solo ou dá uma palhinha mais audível. Quem assume o comando dos instrumentos são integrantes de grupos de samba e pagode – alguns razoavelmente conhecidos em todo o Brasil como o Pirraça, Revelação e Só Preto Sem Preconceito e outros ainda sem a abrangência nacional – e quase cem cantores – no bolo um nome ou outro se destaca na ficha técnica como Ivo Meirelles.
E assim a integração se faz, com os participantes dando o que podem nos instrumentos e no gogó. Sem maiores firulas, todos deixam bem claro que estão ali, independente da presença de microfones da gravadora, para cantar e tocar. Foram quase três horas de gravação das quais foram pinçadas as primeiras músicas para o primeiro ‘‘Samba de Raiz - Ao Vivo’’, que ainda devem render outros dois discos.
O repertório contempla, em sua maioria, grandes sucessos. Algumas inevitáveis em rodas-de-samba como ‘‘Caxambu’’ (Bidubi- Élcio do Pagode - Zé Lobo - Jorge Neguinho), ‘‘Mel na Boca’’ (David Corrêa) e ‘‘Vou Festejar’’ (Jorge Aragão- Neoci Dias - Dida). O restante são faixas relativamente conhecidas do grande público – ou velhas conhecidas de quem realmente trata o samba e suas vertentes como gêneros de primeiras necessidades.
Há pagodes para todos os gostos embora paixões, saudades e exaltações à mulher amada sejam os temas predominantes. Há canções que têm fôlego para tocar em rádio como ‘‘Fora de Ocasião’’ (Marquinhos PQD - Jorge Carioca -Arlindo Cruz) ou ‘‘Ô Irene’’ (Beto Sem Braço-Geovana). O disco rende suas homenagens. A primeira à grande Jovelina Pérola Negra com a faixa de abertura – e o principal sucesso da grande senhora do samba – ‘‘Sorriso Aberto’’. A outra é ao Cacique de Ramos, celeiro de bambas.
Claro, o lançamento de ‘‘Samba de Raiz ao Vivo’’ foi feito às vésperas do carnaval. Marketing. Porém, não se preocupem: o disco, pela coerência, tem tempo de vida útil indeterminado. Fosse numa certa gravadora que abrange um universo de estrelas, certamente ‘‘Samba de Raiz Ao Vivo’’ passaria por um processo de pasteurização. Ou em outras palavras, viria com gosto de chiclete mascado.

mockup