Vocês já devem estar sabendo que o artista Artur Alípio Barrio está com uma exposição em Londrina. Sim, em um galpão alugado especialmente para o evento (Rua Rio Branco x Leste-Oeste). Que ele é um dos artistas mais importantes do país. Que será um dos representantes nacionais na prestigiada mostra Documenta de Kassel, na Alemanha, no ano que vem.
Pois é, quem quiser conhecer melhor a trajetória do homem que criou as ''trouxas ensanguentadas'', o ''livro de carne'', além de inúmeros trabalhos documentados em seus cadernoslivros, poderá ir hoje à noite no auditório da Associação Médica assistir uma mesa redonda - com convidados especiais para o evento - onde seu trabalho será debatido.
Sobre a instalação realizada durante a permanência do artista na cidade, podemos dizer que a base criativa de sua realização foi preliminarmente desenvolvida através de anotações feitas em um caderno branco de desenho, que ia se enchendo de anotações de idéias, imagens poéticas, riscos, rabiscos, desenhos e furos, que ajudaram a orientar suas ações pelas paredes e espaço do local de trabalho. O interessante é que o artista já havia começado sua intervenção na obra, mas continuava as anotações em seu cadernolivro - uma espécie de diário/delírio poético - deixando que um se contaminasse pelo outro à medida que o trabalho ia se desenvolvendo. Na exposição é possível perceber que eles se completam, sendo um a extensão do outro. O caderno-livro-registro-obra passa a ser parte do espaço expositivo e o espaço, parte das anotações deste diário.
Desse modo, é possível seguir os rastros de seu processo criativo, desde seu início, quando o artista se debatia com o que realizar na cidade. Primeiramente é o branco da página, o vazio das idéias, a falta da memória que se impõe diante do risco do desconhecido. Pensa em construir um Museu do Nada, em um lugar sem história, sem contexto para ele. Depois de um mergulho pelo mar em Búzios, descobre um peixe capaz de assumir a forma de um banco de corais onde se abriga. Como um clique, uma iluminação súbita, persegue a idéia de inventar sonhos monocromáticos (o artista havia sido informado que a cor do chão do galpão era cinza), e daí ao delírio poético e à narração de histórias que se completavam ou se dissolviam entre a mímesis e a memória.
As paredes foram tratadas de modo alternado, sem uma sequência linear (embora assim elas possa ser lidas), sendo que a visão do conjunto serviu de referência para a colocação de cada detalhe. O que se ressalta desta idéia, é que a palavra, o texto escrito acaba se transformando também em matéria, ganha peso, densidade, vira desenho, coisa, além do próprio sentido literal que ele evoca. E, por outro lado, os ruídos, sujeiras, escarificações, furos na parede, riscos, rabiscos e desenhos tornam-se, eles também, parte desta mesma escrita, completando o sentido da obra realizada, como uma espécie de volta total pelo arco, em continuidade permanente.
Como uma viagem dentro da viagem, um mergulho dentro do outro, como a extensão de uma percepção normal dentro de outra percepção ''agudizada'' da realidade, o trabalho apresentado em Londrina pelo artista plástico Artur Barrio, denominado de Mémisis, faz circular essa ligação de espaços em trânsito entre o imaginário e o real, de dentro para fora e de fora para dentro, sem evitar, em nenhum momento o atrito, o contato, ou o confronto de posições, como um sonoro ruído em meio a tantas pasteurizações.
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