No rastro de conselheiro
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de outubro de 1997
Ranulfo Pedreiro Londrina 
Estevan Avelar/DivulgaçãoJosé
Wilker,
como
Antônio
Conselheiro,
no filme
de Sérgio
RezendeO sertão do Nordeste da Bahia vivia um impasse em 1896. A madeira comprada para cobrir o telhado da nova Igreja de Canudos não foi entregue, embora já estivesse paga. Antônio Conselheiro não hesitou. Mandou um grupo de seguidores buscar o material em Juazeiro. A atitude foi vista como uma invasão pelo juiz do lugar, que escreveu ao governador exigindo proteção. Era o início da Guerra de Canudos, um dos fatos mais marcantes da história do Brasil, que resultou em mais de 15 mil mortos e ainda está presente na memória das pessoas que viveram no lugar.
Meu pai tinha 12 anos quando a guerra começou. Ele contava que o povo corria de um lado para outro porque todo mundo estava morrendo, e era bala para todo o canto, comenta Jonias Cezar Cardoso. Nascida no arraial construído por Antônio Conselheiro, ela se casou em frente a uma das igrejas erigida pelo líder.
Dona Jonias conta que quase toda sua família é daquela região. Na guerra, perdeu duas tias-avós. O povo acreditava que o Conselheiro era meio Jesus, a maioria o seguia. Na guerra, mesmo morrendo, o povo permanecia com aquela fé. A matança foi tanta que, ainda hoje, nas terras que pertenceram a Izadora Cezar, mãe de Jonias, há trechos interditados pelo governo para futuras pesquisas, pois o solo está cheio de ossadas.
Memória O messianismo de Antônio Conselheiro marcou pelo menos três gerações da família. Izadora Cezar e seu marido - ele presenciou os ataques - tinham terras na região e viveram em Canudos, onde tiveram a filha Jonias, que nasceu quando a cidade estava se repovoando. Jucinet, filha de Jonias, nasceu na nova Canudos e hoje coleciona materiais relativos ao conflito.
Dorico da Silva
Jonias Cezar Cardoso
com a filha Jucinet. Na foto de baixo, recordações de Canudos
O personagem que perambulou pelo sertão no início da década de 1870 e, com o passar dos anos, foi arrebanhando discípulos, fundou a cidade, construiu igrejas e desenvolveu uma comunidade com tendências igualitárias - que se recusava a pagar impostos e tinha uma milícia própria. Com a proclamação da República, o local passou a ser visto como foco de resistência ao novo sistema.
Por isso, quando os seguidores de Conselheiro foram buscar a madeira retida em Juazeiro, o governo respondeu com uma expedição para render a cidade. O que não se esperava era que os moradores de Canudos respondessem o ataque à altura, expulsando os soldados.
A segunda expedição também fracassou. É importante ressaltar que a imprensa apoiava os atos governistas, mostrando Canudos como um lugar perigoso. Uma terceira expedição também recuou frente à força dos conselheiristas. A quarta expedição foi mais forte e, em cerca de quatro meses, destruiu o local em 1897.
Herança Dos combates sobraram balas, restos de armas e outros aparatos que ainda hoje são encontrados nas terras que pertencem à família de Dona Jonias. Peças de metal para a colocação de munições e metade da ponta de um bala de canhão, que eles chamavam matadeira, foram encontradas pela filha Jucinet Cezar Cardoso.
Anos após o conflito, a Canudos original se repovoou. Era uma cidade pequena, mas boa de morar. Alguns tinham terras e outros eram comerciantes. A maioria era da roça. Foi lá que conheci meu marido, nascido em Uauá, um vilarejo próximo, recorda-se Dona Jonias.
Mas, na década de 50, começaram a surgir histórias sobre o alagamento. Diziam que a cidade seria engolida pelas águas. Muita gente abandonou o lugar, inclusive Dona Jonias, que passou a viver em Cocorobó, distante cerca de 10 quilômetros. Após o açude construído pelo governo inundar o arraial de Antônio Conselheiro, Cocorobó adotou o nome de Canudos. Foi nessa cidade que a filha de dona Jonias nasceu. Até hoje, quando as águas do açude abaixam, surgem as ruínas da antiga Canudos.
Muitos acreditam que a cidade foi inundada para apagar a guerra da memória do povo. Mas não adiantou. Na região da nova Canudos encontram-se pesquisadores alemães e italianos estudando a história do lugar, garante Jucinet Cardoso. A guerra ainda é lembrada na região, onde circulam cartilhas que explicam o episódio para crianças e sertanejos.
A nova Canudos mantinha sequelas do conflito. Ainda criança, Jucinet se lembra de uma senhora que vivia de esmolas: Ela tinha um braço paralisado por uma bala da guerra e parecia excluída da sociedade, como se permanecesse escondida.
Mãe e filha moram hoje em Londrina. A família veio para o Paraná depois que o marido de Dona Jonias passou a trabalhar em Goioerê. Mas os parentes ficaram quase todos em nova Canudos, onde ainda hoje convivem com a memória da saga de Antônio Conselheiro.


