No rastro da paixão
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segunda-feira, 23 de setembro de 2002
Roberta Brasil<br> TV Press 
Letícia Spiller é assumidamente passional. Para aceitar um trabalho, a atriz precisa se apaixonar pelo papel e poder se dedicar integralmente. Tanto que, por dois anos, rejeitou vários papéis em novelas da Globo para mergulhar de cabeça em projetos de cinema e teatro. A volta à telinha acontece na nova novela das seis, ''Sabor da Paixão'', de Ana Maria Moretzsohn. Letícia interpreta a protagonista Diana, que se apaixona por Alexandre Paixão, de Luigi Baricelli. A considerar seus filmes mais recentes ''Villa Lobos - Uma História de Paixão'', de Zelito Viana, e ''A Paixão de Jacobina'', de Fábio Barreto a palavra ''paixão'' vem mesmo rendendo muito trabalho para a atriz. ''É um bom sinal. Paixão tem sabor de vida e é no trabalho que eu me renovo'', filosofa.
A atriz está longe das novelas desde 2000. Na pele da governanta Flávia Cristina, ela protagonizou ''Esplendor'', outra novela das seis de Ana Maria Moretzsohn. Em seguida, Letícia recusou fazer a minissérie ''Os Maias'' e o papel de Jade, em ''O Clone''. No início do ano, chegou a ser confirmada como a intérprete da problemática Mariana, de ''Coração de Estudante'', mas mudou de idéia e optou por dedicar-se exclusivamente à peça ''O Falcão e o Imperador'', inspirada num poema grego e em escrituras persas do Século XIII. ''Na época, saiu o dinheiro do patrocínio e os ensaios eram extenuantes. Não dava para me dividir... Foi quando veio o convite da Ana Maria para a novela seguinte'', explica a atriz, que nega ter sofrido qualquer repreensão ou atendido a um ''ultimato'' da emissora para voltar à ativa.
Em ''Sabor da Paixão'', Letícia Spiller interpreta a doce Diana. Com irreverência e jogo de cintura, a filha primogênita do bonachão Miguel Maria, de Lima Duarte, enfrenta as dificuldades financeiras e ajuda o pai a cuidar de seu bar na Lapa bairro tradicional da boêmia carioca. Além disso, Diana mantém um noivado morno com o ciumento Nélson, de Marcelo Serrado, até se apaixonar pelo ''bon vivant'' Alexandre Paixão, vivido por Luigi Baricelli. ''Ela é simples e meio sapeca. Ao mesmo tempo, tem os pés no chão e nunca tinha se apaixonado antes... Vai descobrir a vida durante a novela'', adianta a atriz que, no entanto, não acredita em amor à primeira vista. ''A paixão pode acontecer assim. O amor não. Ele é cumplicidade. Exige que sejamos nós mesmos. Sem medo, sem máscaras'', divaga.
Letícia abandonou o estilo careca, que adotou durante um bom tempo por causa de ''O Falcão e o Imperador''. As madeixas, que ainda estavam muito curtas, foram alongadas e tingidas de castanho. O visual a deixou parecida com Isabella Rossellini há 15 anos. ''É bom mudar porque ajuda a incorporar a personagem'', conta a atriz que, em 99, tinha dificuldade em se reconhecer no espelho com os cabelos negros da malvada Maria Regina, de ''Suave Veneno''.
Para viver uma alegre moradora da Lapa, Letícia nem precisou fazer laboratório. Ela já frequenta o bairro há muitos anos e, lá, garante ter vários amigos músicos, pintores e dançarinos. ''Adoro samba, chorinho... Eu respiro arte na Lapa e me sinto parte desse universo. É algo familiar, ancestral'', acredita. Mesmo assim, a atriz não dispensou as aulas de dança de salão, já que a personagem é uma legítima ''pé-de-valsa''.
Além do berço da malandragem carioca, outro cenário que encantou Letícia foram os vinhedos do Norte Portugal, onde a atriz gravou durante 10 dias. As cenas referem-se à viagem de Diana para localizar as terras herdadas pela família e marcam o reencontro com Alexandre, que ela conheceu numa noite de festa na Lapa. ''Adorei a região. É um lugar tranquilo onde, nas horas de folga, pude fazer ioga e meditar'', conta.
A atriz assume sua preferência em atuar nos palcos, pela autonomia criativa que o teatro oferece ao ator. Mas destaca que o lado bom de voltar à televisão é trabalhar com uma equipe ''alto astral'', numa história alegre e no velho estilo ''conto de fadas''. ''As pessoas precisam dessa leveza. A vida já está tão difícil, com tanta violência, tantas guerras... que a gente tem o dever de proporcionar bons momentos ao público'', defende.


