NO RASTRO DA MÚSICA CAIPIRA
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
A jornalista Rosa Nepomuceno, que há anos transita na área de cultura pelas redações de grandes jornais e revistas do País, por quase um ano e meio trocou os agitos das cidades para se aprofundar na rala memória da música caipira. Esse mundo rico de imagens bucólicas, mas também de choques culturais e necessidade de aceitação, foi colocado nas mais de 400 páginas do livro Música Capira Da Roça ao Rodeio, que estará sendo lançado hoje, a partir das 10 horas, nas Livrarias Curitiba, na Boca Maldita, dentro da programação da Oficina de MPB.
Na livraria a sessão de autógrafos terá participação do grupo Viola Quebrada, interpretando músicas do CD que também está chegando às lojas. Às 19 horas, Rosa Nepomuceno encontra-se com o público para uma palestra sobre o tema da música sertaneja no Colégio Estadual do Paraná. Enfim, histórias a serem contadas.
Diz a pesquisadora que a música caipira teve origem quando os portugueses aportaram aqui. Entre outros atrativos, eles atraíram os nativos também com música acompanhando-se de violas, cantavam suas modinhas que se misturaram às manifestações indígenas. Os bate-pé, bate-mão deram origem ao cururu e cateretê. São os gêneros mais velhos no Brasil, afirma Rosa.
Esse é o gênesis de um gênero que viria a ganhar a cidade somente nos anos 20, quando o homem do campo abandona a roça para sobreviver na cidade. Aí começa uma nova história, esta sim, relatada no livro através das décadas, até chegar aos nossos dias. Publicado pela Editora 34, Música Caipira Da Roça ao Rodeio divide-se em duas partes: A História e Os Personagens.
Como se deduz pelo título, as 200 páginas iniciais referem-se à trajetória histórica dos caminhos tomados pela música, suas influências, seus intérpretes. As demais são ocupadas pelas biografias de 16 personalidades mais marcantes do gênero, na opinião da autora.
São eles: João Pacífico, o Noel Rosa da música caipira, Jararaca e Ratinho, Raul Torres, Capitão Furtado, Alvarenga e Ranchinho; Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana, Inezita Barroso, mulher que saiu da sociedade paulista para ser caipira, Tião Carreiro, violeiro copiado e reverenciado pelos novos, Rolando Boldrin, Sérgio Reis, Renato Teixeira; Pena Branca e Xavantinho, Almir Sater, Helena Meirelles e Chitãozinho e Xororó, que considero um marco do sertanejo pop, com Fio de Cabelo, de 1982.
A escritora traça os caminhos tomados pelas composições caipiras, através de suas inúmeras influências. Estas são determinantes não só pelo choque cultural, mas porque o caipira sentia-se impelido a ser um homem urbano.
O preconceito sobre a sua condição social de certa forma o acuava. Assim como os sons nordestinos acabaram se misturando à sua música, outras correntes viriam a se juntar como a das fronteiras com o Paraguai e Uruguai, trazidas pelos tropeiros.
Esse ir e vir representado num movimento constante através das décadas permanece ainda hoje, agora muito mais evidente. A ênfase está em se parecer norte-americano, como fez Bob Nelson nos anos 50, mais isoladamente. Com o apoio da indústria do disco, os astros nacionais querem ser internacionais adotando o mesmo figurino do exterior.
Na trilha iniciada nos anos 60 e 70 por duplas como Milionário e José Rico (cabeludos, cheios de anéis e medalhões), esses artistas que vieram do interior a exemplo de Chitãozinho e Xororó, Zezé Di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo tentam romper com o passado, cortando o cordão umbilical com as origens, descreve Rosa Nepomuceno em seu livro.
Eles conservaram apenas a forma de cantar em duplas de terças, que é a velha fórmula das modinhas portuguesas cantadas na roça, explica. A jornalista, porém, detém-se em Chitãozinho e Xororó:
Por sua origem de filhos de cantador de moda de viola, eles têm ainda um grande amor, grande afinidade com esse mundo rural. Com toda essa roupagem pop, ainda assim têm sangue caipira forte nas veias. Tanto que quando cantam moda de viola Cabocla Tereza, Tristeza do Jeca , são imbatíveis. Mas eles fazem parte desse mercado que quer ser internacional; a alma caipira fica escondida sob o figurino moderno internacional.
É uma opção. Como outra que está ocorrendo e arrebanhando um número cada vez maior de artistas urbanos que deixam seus conhecimentos da música dita moderna, para se embrenhar na de raízes. São os músicos da cidade que querem ser caipiras. A explicação para isso talvez seja um início de saturamento da pasteurização que virou a música brasileira, segundo o entendimento de Rosa.
Os jovens querem a música deles, de sua terra. Eles estão querendo redescobrir o que é nosso, e à medida que ouvem, gostam. O mercado do disco fatalmente vai se voltar para esses segmentos, aposta a jornalista. Estou sentindo que está havendo um movimento entre a moçada de recuperar a música de raiz não só do interior de São Paulo, Minas, Paraná, Mato Grosso. No Nordeste também. Há muitos grupos de maculelê.
O livro de Rosa termina aí, ou seja, nestes tempos em que dois movimentos existem simultaneamente. Aquele que está atrelado à música internacional e o outro, de uma redescoberta das origens. Quando teve início este caminho de volta? Rosa é precisa: Começou com Romaria, de Renato Teixeira, em 77. Ele foi um bandeirante. Deu-se o estouro nacional com a gravação da Elis Regina. Pode-se dizer que a Elis foi a porta-bandeira do novo caipira.
Música Caipira Da Roça ao Rodeio, de Rosa Nepomuceno, publicado pela Editora 34. Sessão de autógrafo hoje, a partir das 10 horas na Livrarias Curitiba (Boca Maldita). O livro custa R$ 33,00. Às 19 horas tem palestra com Rosa Nepomuceno, no Colégio Estadual. Entrada franca.A jornalista Rosa Nepomuceno investiga em livro a música que teve origem com os portugueses e hoje se traveste com recursos modernos
Albari RosaPara Rosa Nepomuceno, a música caipira tem dois caminhos na atualidade: um que segue o figurino americano e outro o brasileiro





