As memórias de infância, as histórias contadas pelos avôs, as narrativas do cotidiano vividas entre amigos, a religiosidade, o folclore, o cordel e as raízes da MPB forneceram farto material para o cantor, compositor e violonista londrinense Tonho Costa trabalhar em seu primeiro disco.
Após atravessar uma década nos palcos, como vocalista de bandas como Set Satelite e Uquiah Dibõ, ele se apresenta agora em carreira solo com o CD ''Universo Quintal'', gravado este ano com patrocínio do Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura). O show de lançamento está previsto para setembro, provavelmente no Teatro Zaqueu de Melo.
''É um disco de música brasileira, no qual se encontram as matrizes africanas, européias e as influências árabes no Nordeste. Tentei traduzir a minha verdade e ao mesmo tempo estabelecer uma comunicação com o ouvinte'', afirma ele. O CD foi gravado no estúdio Bless, de Edu Jardim. Traz 12 composições próprias com arranjos e produção feitos em parceria com Luciano Silva.
Este participou também das sessões de gravação tocando violão ao lado dos músicos Isaías Santos e Rodrigo Montenegro (contrabaixo), Alex Sanches (percussão), Julio Erthal (saxofone e flauta) e Kleber Vailant (guitarra). A bateria ficou por conta de um convidado especial: o carioca Téo Lima, produtor de Ivan Lins e amigo há uma década do anfitrião.
''Eu o conheci por volta de 2000. Ele veio a Londrina e, a partir de conversas, me fez pensar e pesquisar sobre a identidade musical de nossa região. Hoje não acredito que exista isso, mas foi a primeira tentativa para ir atrás de minhas raízes'', lembra. Personagem atuante na cena musical londrinense, Costa ficou conhecido como ''Tonho Brown'' no período em que interpretou hits da dance music e do funk da década de 1970 como vocalista da banda Set Satelite.
''Foram 4 ou 5 anos intensos até o ciclo chegar ao fim. Percebi que o recado estava dado e resolvi me mudar para o Rio de Janeiro'', conta. Na Cidade Maravilhosa, estudou durante quatro meses na Escola Portátil de Música (EPM), referência no ensino de música popular contando com uma equipe de professores do primeiro time do choro, como Maurício Carrilho, Amelia e Luciana Rabello.
Estimulado, retornou a Londrina e começou a compor. Deixou cerca de 20 canções esboçadas e partiu outra vez para o Rio, onde fez apresentações em bares da Lapa. De volta à terra vermelha, realizou shows com o grupo Uquiah Dibõ e atuou no espetáculo cênico musical ''Cabaré da Confraria'', que revivia a boemia da década de 1950.
Em janeiro deste ano, decidiu que era hora de entrar em estúdio para gravar as composições. Do material reunido, acatou as opiniões de Luciano Silva e selecionou 12 músicas. O repertório oferece um passeio por ritmos brasileiros, sem se ater a formatos rígidos. ''Às vezes sugerimos um baião, mas a execução foge do padrão. O mesmo ocorre com o samba ou com o maracatu. Usamos células rítmicas, enquadrando-as às atmosferas instrumentais pedidas por cada tema'', assinala.
Nas letras, Costa aborda vivências diversas, desde lembranças de cantorias populares e experiências religiosas a brincadeiras comuns em churrascos e histórias contadas por familiares. ''Meu avô era embaixador de Folia de Reis em Minas Gerais. Essa influência está presente no disco, que traz uma estrutura semelhante à dessa manifestação folclórica, incluindo uma apresentação na primeira faixa ('Licença') e uma despedida na última ('Pouca Hora')'', revela.
O humor é outro elemento explorado nas composições. A letra de ''Samba da Comida Moderna'' ironiza a modernidade: ''A Tatá não come frango, o Dodô tem diabete / E a Nenê com a pressão quase estourando. Olha o sal / A mulher do tio só peixe, o Gervasio com gastrite / E o Dudu não come carne vermelha, não sei não / O povo de hoje tá muito enjoado /E quem tá na cozinha vai enlouquecer''.
''Esse negócio de comida ficou difícil, tanto para quem faz quanto para quem come. Cozinhar virou uma aventura'', conclui o músico. O CD sai dos fornos com uma tiragem de mil cópias. Está à venda na Banca Rodeio (R. Professor João Cândido, 333, esquina com Alameda Miguel Blasi) a R$ 15,00.

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