No palco, fantasia e solidão
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quinta-feira, 17 de setembro de 1998
Zeca Corrêa Leite 
No último Festival de Teatro de Curitiba, realizado em março, Diário de um Louco, com Diogo Vilela, foi o primeiro espetáculo a ter seus ingressos esgotados, dias antes do início da mostra. Quem ficou a ver navios agora tem a oportunidade de assistir a um dos mais importantes momentos teatrais dos últimos anos. Diário de um Louco está em cartaz, neste final de semana, no Teatro Fernanda Montenegro.
Um aviso para aqueles que insistem em chegar atrasados à sessão: não será permitida a entrada após o início do espetáculo, nem haverá troca dos ingressos ou devolução do dinheiro. Para se ter idéia de sua importância, a montagem levou todos os prêmios da temporada carioca - Prêmios Sharp, Shell e Troféu Mambembe - sendo que para o Sharp foi a peça com o maior número de indicações: para direção, ator, iluminação, figurino, cenografia e espetáculo. Conquistou as estatuetas de melhor ator e melhor espetáculo.
Escrito pelo russo Nikolai Gogol originalmente em forma de conto - muito embora pretendesse fazê-lo para o teatro - Diário de um Louco foi adaptado para o palco pelos franceses Roger Coggio e Silvie Luneau. Transformou-se num clássico encenado em todo o mundo.
Depois da magistral interpretação de Rubens Corrêa, em meados dos anos 60, é a vez de Diogo Vilela dar grandeza e vida a Axenthy Ivanovitch Propritchitchine, um obscuro funcionário público na Rússia czarista, que vê seus dias escoarem num apartamento estreito e imundo. Sem saída para tanta solidão, alegra-se com as cores da paixão nutrida pela filha do chefe. Porém, ela está tão distante como o mundo dos abastados de seu universo vil.
Ele tem noção de tudo que o cerca, de sua figura grotesca, da repulsa que causa à mulher amada. A clareza da consciência o trai à medida que vai enlouquecendo; desfazem-se os liames entre a imaginação e a realidade e o que resta no final é a violência do manicômio. Quem há de entender um nobre espanhol como Axenthy Ivanovitch Propritchitchine?
O homem que vai se deteriorando no palco traz muito dos loucos confinados nos hospícios. Diogo Vilela vestiu-se de branco e internou-se no Centro de Psiquiatria do Hospital Pedro Ernesto, no Rio, para conhecer melhor esse mundo, colher dos doentes os seus tiques, o brilho dos olhos, os silêncios. Sua intenção era passar despercebido, como um dos enfermeiros do hospital.
Foi um vexame. Reconhecido de imediato, teve seu nome gritado pelos internos. Fiquei com tanta vergonha que queria sumir, diria mais tarde. Dessa experiência o ator emergiu com a força e a beleza do funcionário público, num espetáculo estonteante. A platéia ri muito, apesar da situação que envolve o personagem. Mas a emoção impera forte, soberana. Assim como a montagem de mais de 30 anos atrás, também esta já entrou para a história do teatro brasileiro.
Diário de um Louco - de Nikolai Gogol. Direção de Marcus Alvisi. Com Diogo Vilela. Teatro Fernanda Montenegro. Hoje e amanhã, às 21 horas. Domingo às 19 horas. Ingressos: R$ 25,00. Informações pelo telefone 224-4986. Não será permitida a entrada após o início do espetáculo; sem direito a troca de ingressos ou devolução do dinheiro.


