No ótimo 'Vitória', dona Nina vai à luta
Em mais um campeão brasileiro de bilheteria, Fernanda Montenegro encarna a resistência de um povo entregue à própria sorte
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de março de 2025
Em mais um campeão brasileiro de bilheteria, Fernanda Montenegro encarna a resistência de um povo entregue à própria sorte
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Aparentemente frágil em suas oito décadas de vida sofrida, o personagem vivido na telona por nossa grande dama das artes cênicas é todo coração. Até certo ponto. Porque a paciente e aposentada acomodação na fase derradeira de sua existência tem lá seus limites. Porque nos acanhados metros quadrados de seu apartamento em Copacabana, ao sopé da ladeira-favela sacudida dia e noite pelo matraquear dos tiroteios do tráfico apadrinhado pela polícia subornada e conivente, aquilo que deveria ser seu perseguido e merecido descanso virou o vestíbulo do inferno, janela escancarada para a bala perdida que a qualquer momento pode rasgar as dobras daquela pele pergaminhada que ainda vai buscar forças para resistir a esses tempos muito, muito sombrios.
INDIGNAÇÃO E RESISTÊNCIA
Assim, munida com a melhor munição ao alcance de sua teimosa e indignada resistência, dona Nina vai à luta. Sem saber exatamente a extensão de sua providência, mas ciente de que precisa de provas em busca de punição para a bandidagem desenfreada, ela se arma com uma pequena câmera VHS (o tempo é o início deste século) e se torna o anjo vingador com a poderosa artilharia do cinema verdade.
Entretanto, qualquer ato de comprometimento comunitário pode ter um alto preço. Neste caso, assumir a autoria da denúncia significa reestruturar uma vida que tanto sacrifício custou e tentar assumir uma nova identidade, enfim, uma nova (e curta) sobrevida.

Com este material em mãos, a partir do livro do repórter policial Fabio Gusmão (no filme, o ator Alan Rocha), o diretor Andrucha Waddington recriou episódio real e famoso da existencia de Joana da Paz, uma octogenária que ousou denunciar criminosos (legais e ilegais), culminando de fato com a denúncia e prisão de muitos deles.
A Nina do bom roteiro de Paula Fiuza é uma ex-doméstica e massoterapeuta autodidata igualmente idosa e solitária, a quem a presença dramática de Fernanda Montenegro, 95, sabe imprimir uma presença que existe na tela a partir de muito pouco. Fragilidade e força estão sempre de mãos nesta velha senhora quase nada aquinhoada pela vida, mas ela deixa bem claro (e vende bem caro) este pouco que ganhou da vida.
Corajosa e inconformada com a pasmaceira dos vizinhos, da polícia, do exército e quem mais ela procura para expor sua angústia, Nina não negocia com a indiferença de todos diante da brutalidade da megalópole. Claro, ela é um tanto ingênua na avaliação dos riscos que corre (e o jornalista também). O filme se resolve muito bem num mix de drama policial de suspense, retrato de personagem e radiografia de uma chaga social, a do crime na cidade grande, aquela que conhecemos mas temos a abominável capacidade de banalizar.
Antes que me esqueça (e não dou a mínima se esquecer, até porque não me interessa). Claro, celebridade atrai polêmica. Apareceu há pouco uma crítica sobre a cor da pele de Fernanda Montenegro. Branca, ela não poderia ter interpretado o papel de Joana, uma negra (que, aliás, adorou a ideia de ter Fernanda no papel). Ela morreu em 2023, feliz por ter aprovado a escolha de atriz feita por outro falecido, o então diretor Breno Silveira, a quem o filme é dedicado. E tem a questão do nepotismo (sic): o diretor Waddington é genro de Fernandona, marido de Fernandinha. Ora, ora...


