No olho do furacão
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Luana Borges<br>TV Press 
Os traços fortes e o porte físico de Malvino Salvador lhe renderam personagens viris ao longo de sua trajetória na tevê. Mas a figura de "galã bronco" logo se dissipa nos primeiros minutos de conversa com o ator.
Consciente da responsabilidade que acompanha o posto de protagonista de novela das nove, o intérprete do Bruno, de "Amor à Vida", valoriza cada conquista da carreira. Até porque sabe que a concorrência é grande e as chances de interpretar um papel principal são restritas a poucos. "Esse meio é um funil. Há grandes profissionais no mercado que ainda não conseguiram uma solidez na profissão. Lembro que, quando entrei em 'Cabocla', fiquei muito feliz, em estado de êxtase", recorda, citando sua estreia na tevê.
Junto com o "peso" e a visibilidade que um protagonista traz, estão as críticas. Mas, com elas, Malvino lida com serenidade. E garante entender que fazem parte da profissão do ator. "Eu não me incomodo. Cada um sabe que responsabilidade deve assumir. Às vezes, a gente acerta, às vezes, erra. Vai ser sempre assim", constata. "Mas tudo que faço é com muita vontade de acertar. Me dedico e estudo para fazer bem", completa.
Desde que estreou na tevê, em "Cabocla", de 2004, Malvino tem se mantido no ar. Atualmente no quinto trabalho com Walcyr Carrasco que supervisionou "O Profeta", de 2006 , ele percebe que as experiências anteriores com o texto do autor o ajudam no trabalho atual. "Cada autor tem suas características. Agradeço muito ao Walcyr porque ele me deu grandes personagens ao longo da carreira", derrama-se o ator, que integrou o elenco de "Alma Gêmea", "Sete Pecados" e "Caras & Bocas", todas escritas pelo autor de "Amor à Vida".
Logo no início de "Amor à Vida", seu personagem se envolveu em uma situação polêmica ao pegar uma criança que encontrou no lixo, não avisar às autoridades e registrá-la como filha biológica. Em que momento o personagem exigiu mais de você como ator?
O começo foi muito difícil. A primeira cena que fiz foi quando Bruno encontrou a criança no lixo. Então, é uma carga dramática muito grande e é difícil acertar isso. É preciso estar muito concentrado e disponível para sentir emoções que são muito fortes do personagem e que não são suas, mas a gente compartilha delas. Foi difícil, mas, ao mesmo tempo, muito prazeroso porque, quando eu acabava e via o resultado, gostava bastante. Os meus colegas também vinham falar que tinham gostado das cenas. A gente sabe quando faz uma cena boa e quando não faz. E, depois, houve um momento no meio que foi um pouco difícil para mim, mas por causa do excesso de trabalho. Estava trabalhando de segunda a sábado, de manhã até a noite. Ficava difícil ter tempo de decorar as muitas cenas em um único dia. Mas isso passou e, com o tempo, você já sabe bem a história do personagem e as relações dele dentro da novela.
Você estreou em "Cabocla", de 2004, na pele de um papel de destaque, o peão Tobias. Enveredar para tipos mais urbanos foi uma busca sua para não ficar marcado por um perfil rústico na tevê?
O que acontece é que o Tobias foi muito expressivo e acho que ficou muito marcado. Realmente, foi um personagem muito importante na minha carreira. Até hoje, algumas pessoas falam de "Cabocla" e é muito bacana saber que um personagem ficou na memória do público. Mas, logo em seguida, fiz o Vitório de "Alma Gêmea", que estava inserido em um contexto completamente diferente. Apesar de ser também uma novela de época, era um cozinheiro e tinha uma pegada no humor. Fiz outra novela de época, "O Profeta", mas, logo depois, vivi um personagem contemporâneo, um boxeador. Aí, veio outro personagem atual, o Damião de "A Favorita". E mais dois urbanos em "Caras & Bocas" e "Fina Estampa".
O que mais mudou em sua vida depois da estreia em "Cabocla"?
Logo depois que estreou a novela, lembro que fiquei impressionado com o assédio do público. No início, me deixou até um pouco assustado. Eu tive de aprender a lidar com isso. As pessoas me olhavam e eu me sentia incomodado de ser observado o tempo todo. Demorei um pouco mais de um mês para começar a relaxar.
E como você lida com a fama atualmente?
Hoje em dia, é tranquilo. Lido muito bem, não deixo de ir a lugar nenhum, pelo contrário. Gosto de sair na rua, de falar com as pessoas, de sair com meus amigos. Tem gente que não consegue lidar direito com isso, que fica recluso em casa. Eu não. Não consigo ficar em casa de jeito nenhum. Eu sou assim, de ir lá para Salvador, no Carnaval, e descer na pipoca (área em que ficam as pessoas que não pagaram por um camarote) (risos).
A televisão costuma aproveitar os atores naquilo que eles já funcionaram antes. Como você lida com os estereótipos que o veículo cria?
Acho normal, isso acontece na televisão e no cinema. No teatro, acontece menos, a gente consegue explorar outros lados com mais facilidade. O cinema e a tevê, principalmente, que são veículos que precisam mesmo de um retorno financeiro, apostam no que pode dar mais certo. Se alguma coisa foi bem-sucedida, é aproveitada de novo. Então, se estou fazendo um personagem que deu certo em uma outra configuração, é normal que, às vezes, haja uma repetição. Mas nunca vai ser a mesma coisa. O ator tem de ter a sapiência de não se engessar na forma de interpretar. Se me dão dois mocinhos, eu posso criar dois mocinhos diferentes porque eles têm histórias diferentes. O figurino, o corte de cabelo e a caracterização já ajudam bastante também. Não vejo muito problema com isso.


