“Ma Rainey – A Voz Suprema do Blues”: filme da Netflix traz aquilo que deve prevalecer em qualquer Natal, a reflexão
“Ma Rainey – A Voz Suprema do Blues”: filme da Netflix traz aquilo que deve prevalecer em qualquer Natal, a reflexão | Foto: Netflix/ Divulgação

Certamente a resposta mais óbvia para o fato de que nem mesmo uma pandemia pode desacelerar o mercado dos filmes de Natal é que, em tempos difíceis, precisamos de rotas de fuga. Mas, e se não for ? E se o mesmo não acontecer com todos nós ? Por que existe sempre a tendência de superestimar a proposta de entretenimento mais ameno em tempos tristes ? Não consigo deixar de pensar que o compromisso unilateral com o cinema de evasão é um equívoco. E isto porque basicamente nem todos encontramos escapatória, respostas e refúgio nos mesmos filmes.

A tela grande contribuiu para a criação de um imaginário e de um conceito de festa de Natal, branco e puro, que foi retroalimentado pela realidade contemporânea. Um exemplo daquilo que Oscar Wilde quis dizer quando afirmou que a vida imita a arte mais do que a arte imita a vida. Conceito que certamente ele gostaria de desmoronar com ironia.

“The Happiest Season” (A Estação Mais Feliz).mostra um casal gay que vai passar o Natal na casa da família de uma delas
“The Happiest Season” (A Estação Mais Feliz).mostra um casal gay que vai passar o Natal na casa da família de uma delas | Foto: Divulgação

Pois então é isso. É tempo de pensar, não de evadir. Olhar para dentro, no sentido de incluir. Não é à toa que, sem renas, Polo Norte ou elfos natalinos, o filme que no momento está sacudindo o “entretenimento mais ameno em tempos tristes” é uma realização de inclusão, uma comédia leve e ao mesmo tempo séria, cercada de boas criticas: “The Happiest Season” (A Estação Mais Feliz), dirigida por Clea Duvall e com

as ótimas Kristen Stewart e Mackenzie Davis como um casal gay que passa o Natal na casa da família de uma delas (para ver, somente em streaming via Hulu, complicado no Brasil, mas você pode sempre tentar).

Ainda na mesma linha da inclusão, um longa recém-estreado em Netflix: “A Festa de Formatura” (The Prom). Nenhuma referência a Natal, mas uma proposta com o espírito da inserção social via outro...casal gay. O roteiro e a direção são do multipremiado Ryan Murphy (Glee, Hollywood) , velho conhecido dos seriéfilos e especialista em incluir em seus dramas uma galeria de diversidades. “O Baile de Formatura” é pródigo em cafonices diversas, o que não o diminui como conceito de “entretenimento mais ameno

em tempos simples”.

A saudade dos velhos musicais (para quem gosta, obviamente, como eu) ajuda bem a assimilar o perfil unidimensional dos personagens numa trama rasa, sem reviravoltas ou transições . Mas a coreografia é excelente, as interpretações competentes (Nicole Kidman e Meryl Streep são reforços bem calculados) e as músicas (muitas) não deixam você perceber como o filme por um lado é bobo. Mas por outro é efetivo, quando trata de preconceito de gênero, mas não chega a ser insistentemente chato quanto a minissérie

“Hollywood”.

“Ma Rainey – A Voz Suprema do Blues”: filme da Netflix traz aquilo que deve prevalecer em qualquer Natal, a reflexão
“Ma Rainey – A Voz Suprema do Blues”: filme da Netflix traz aquilo que deve prevalecer em qualquer Natal, a reflexão | Foto: Netflix/ Divulgação

E para completar, um grande, grande filme: “Ma Rainey – A Voz Suprema do Blues”, aliás Gertrude Malissa Nix Pridgett Rainey, nome de batismo de uma precursora do blues, e um desses filmes que aumentam a desconfiança de que a Netflix não entrou no streaming só por diversão. Personagem tão intenso quanto o pequeno recorte biográfico que está no filme, Ma Rainey é mais uma soberba criação de Viola Davis. E o drama dirigido por George C. Wolfe (e produzido por Denzel Washington) marcou a derradeira atuação de Chadwick Boseman, já debilitado pela doença que o matou em agosto ultimo. Além da grande música de Ma Rainey e sua banda, o filme oferece aquilo que pode e deve prevalecer em qualquer Natal: a reflexão.

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