No mundo das marionetes
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de janeiro de 1998
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
fotos: Jonas Oliveira
Paulinho de Jesus é um expert em bonecos e garante que no Brasil a arte está ficando mais refinada, graças às exigências do público e dos artistas
Fazer bonecos é arte e ofício...
aos quais Paulinho de Jesus dedica-se...
em busca constante da perfeição
No palco, os bonecos são estrelas...
manipuladas pelas mãos sensíveis do...
marionetista preocupado com detalhes
O ator e marionetista Paulinho de Jesus nem sempre se satisfaz com os cursos voltados ao teatro de bonecos. É comum, nessas aulas, apenas a preocupação com o aspecto artesanal da arte, sem haver aprofundamento sobre a caracterização das personagens. Essa lacuna ele pretende preencher com a Oficina de Criação, Confecção e Manipulação de Bonecos de Fios, que dará na Oficina de Criação, entre 21 de janeiro e 13 de fevereiro.
No meu entender a criação passa por um processo mais refinado, comenta. As pessoas não estão acostumadas a pensar mais profundamente no boneco. Elas imaginam que ele seja só um objeto, e não é assim. O marionetista afirma que assim como os atores criam pequenos detalhes para seus personagens, o mesmo deve acontecer em relação ao boneco.
No curso, de aproximadamente 60 horas, os alunos serão convidados a discutir os personagens que querem criar. O resultado dessa conversa irá parar no papel e só então será analisado qual o material a ser utilizado na confecção.
SilêncioA Oficina de Criação, Confecção e Manipulação de Bonecos de Fios termina em fevereiro com um espetáculo que será criado coletivamente no transcorrer do curso. O professor deixa claro sua preferência pelos roteiros cujo elemento principal seja o gesto. Para ele, a palavra está para o ator, assim como o gesto está para os bonecos.
Há dez anos trabalhando com marionetes, Paulinho de Jesus vê com bons olhos a situação atual dos que se dedicam à arte. Falta muito para chegar-se ao ideal, mas há uns quatro anos, calcula, a arte bonequeira vem ganhando espaço em todo o Brasil.
Mesmo na televisão os bonecos são atrações constantes, desde programas populares como os de Gugu e Faustão até os de Jô Soares e da TV Cultura. Por outro lado também está havendo um envolvimento maior dos artistas na seriedade do trabalho.
Os festivais que acontecem regularmente em Canela (RS), São Paulo, Curitiba e Brasília geram, por sua vez, um público cativo e cada vez mais exigente. Paulinho lembra que nas primeiras edições do evento em Canela, a platéia embasbacava-se com todo e qualquer cartaz vindo do exterior. Hoje a situação é outra.
A mesma reação ocorre em Curitiba, no festival internacional produzido pelo Teatro Guaíra, no meio do ano. Criou-se um grau de exigência que não existia até pouco tempo atrás. Contudo, a mudança de comportamento não diz respeito apenas à platéia - também os artistas passaram a obrigar-se a um trabalho mais refinado, inclusive acompanhando a tendência da mistura de linguagens. O resultado é um só: ganho para todos.
Planos de PaulinhoO curso ministrado pelo ator no Espaço Cênico é apenas o começo de uma série de projetos que ele pretende realizar neste ano. Logicamente que tudo vai depender do humor dos patrocinadores. Um dos espetáculos acalantados há um bom tempo chama-se Equilibrista.
Outros, porém, estão na mira: As Variedades de Proteu, de José da Silva, o Judeu, com a Orquestra América Antiga, e A Longa Viagem do Capitão Fulano de Tal.
São duas produções ambiciosas. As Variedades de Proteu colocará no palco 18 personagens (seis principais e o restante figurantes) para contar as engraçadas agruras ocorridas numa localidade da era medieval. José da Silva, conhecido como Judeu, sofreu os horrores da inquisição mas perpetuou no tempo a crítica aos costumes da época - os tropeços da política e do clero.
O espetáculo é uma opereta. Poderia muito bem ser feito com atores, mas Judeu escreveu para teatro de bonecos, como um subterfúgio para não bater de frente com os poderosos da época. É um trabalho que continua sendo muito atual pelos assuntos que ele aborda, diz Paulinho. A estréia está prevista para o segundo semestre, provavelmente em agosto.
A Longa Viagem do Capitão Fulano de Tal, terá em cena bonecos e atores, entre eles o próprio Paulinho, Ana Toledo, Guta Borges e Enéas Lour. A montagem é uma adaptação da obra Longa Jornada Sobre o Oceano, de Bertolt Brecht, feita por Enéas Lour. Se depender de projetos e da minha disposição em trabalhar, este ano será maravilhoso, brinca o ator.


