No mundo da gíria
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de fevereiro de 1999
Érika Pelegrino 
No início da década de 80 o antropólogo e jornalista do Rio de Janeiro J.B. Serra e Gurgel começou a anotar as gírias que escutava, e não eram poucas. Onde havia dois seres humanos se comunicando, surgia uma expressão alheia à linguagem padrão. Não importava se a conversa era entre madames, surfistas, malandros, jovens, velhos, brancos, negros, amarelos. Ou se acontecia no rádio, televisão, revistas ou no elevador. Se tinha comunicação, tinha gíria, com exceção das pessoas com nível cultural muito elevado, mesmo assim um ou outro intelectual às vezes soltava uma gíria.
A intenção, a princípio, era fazer um mestrado aproveitando o assunto na Universidade de Columbia em Nova York. Em pouquíssimo tempo Gurgel já tinha anotado 600 gírias. Ao invés da academia, desenvolvi o empirismo dinâmico do contato diário com o Brasil, diz. Em 1990 lançou a 1ª edição do Dicionário de Gíria - O Equipamento Linguístico Falado do Brasileiro, com seis mil verbetes.
Mas Gurgel logo percebeu que o terreno é muito mais fecundo e, este ano, seu dicionário chega à 5ª edição com quase 15 mil verbetes. Esta edição traz ainda uma novidade: a ilustração da capa é da jornalista londrinense Iara Lessa (ver box).
O antropólogo considera a gíria como sendo a segunda língua dos brasileiros, e isto não depende da classe social, religião, cor. Acredito que, consolidada, a gíria chegue a 50 mil verbetes. Tenho comigo muitos dicionários de gíria de diferentes autores e de diferentes regiões do País, afirma Gurgel.
Ele tem como projeto futuro uma tarefa um tanto complexa: reunir todos os dicionários em um único com o título Dicionário Brasileiro de Gíria.
Certos puristas da língua não vão gostar. Certos linguistas, que se divertem com o discurso óbvio, também. Muitos gramáticos vão arrancar os cabelos, afirma.
Mas o antropólogo não se intimida, por reconhecer na dimensão do universo gírio sua importância. 50 mil gírias correspondem praticamente a um terço da linguagem padrão oficial, calculada em 140 mil verbetes, diz. Segundo ele, a gíria existe em todas as línguas. No Brasil o seu emprego estaria associado ao fato de ser um país onde não há dialetos, e sim regionalismos.
O que une o Brasil linguístico é a gíria, que é entendida por brasileiros do Acre ao Rio Grande do Sul com um significado praticamente único, explica.
Mas o problema da educação no País é, de acordo com Gurgel, o grande estimulador da gíria.
Ele afirma que as deficiências estruturais na escola pública e privada do 1º, 2º e 3º graus são gritantes. O mais grave: há muito blablablá, muito papo furado, muitas teses idiotas de mestrado de idiotas... e o resultado é que o brasileiro cada vez mais fala gíria, afirma. Ao invés de reduzir, aumenta. Ao invés de conter, explode. Arrombaram a língua mãe, conclui.
Sem uma reforma educacional, Gurgel acredita que a gíria tem futuro no Brasil, nada menos do que brilhante. Há por aí 40 milhões de brasileiros não alfabetizados e outros 80 milhões semi-alfabetizados, muitos com diploma na mão, que não conhecem nada da língua padrão, afirma.
Nas escolas com baixos salários e baixos conhecimentos, segundo Gurgel, teoriza-se sobre o óbvio das coisas óbvias, prioriza-se o fim pessoal, destaca-se a mediocridade, valoriza-se o oportunismo. Nesta mixórdia, a gíria vai crescer, acredita.
Neste contexto, a maioria dos brasileiros que não têm condições de estudar recorre à gíria para se comunicar. Gurgel afirma que com 2.500 gírias é possível se comunicar e se fazer entender. Assim, segundo o antropólogo, a gíria nasce nas ruas, por ser uma linguagem das ruas.
Brotam como o sopro do vento, na medida em que as pessoas precisam se comunicar, precisam se entender, afirma. Como não estudaram, como é caro e elitista estudar a língua, correm para a gíria, conclui. Ao apresentar seu Dicionário de Gíria, Gurgel faz uma recomendação: Ao pisar em terreno gírio, venha com calma e sem preconceito. Desfrute de sua visita.


