No mundo da bola
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de junho de 1997
Fábio Dobbs TV Press 
A atriz Rachel Ripani veio de Londres para interpretar Sílvia, uma jogadora perna-de-pau da novela Zazá, na Globo. Estou criando bolhas nos pés, reclama a atriz estreante. O motivo do sofrimento são as aulas de futebol que Rachel tem de enfrentar para compor sua personagem.
A falta de prática com a bola não deveria ser empecilho para Rachel, mesmo porque a personagem é uma péssima jogadora. Mas a atriz consegue ser ainda pior do que a personagem. Não distinguia um juiz do bandeirinha, lamenta. Para melhorar, Rachel assiste aos jogos de futebol feminino na tevê para ficar mais íntima do esporte.
A imagem que a atriz fazia do futebol feminino começa a mudar. Sempre pensei que era um bando de mulheres correndo atrás da bola, analisa. Hoje, Rachel consegue entender o suficiente para se orgulhar do nível técnico das jogadoras brasileiras. Elas têm técnica e muita raça,acredita.
A atriz tenta driblar o tormento dos treinos com a bola, através do condicionamento físico. Já que não consigo chutar, pelo menos corro atrás da bola, brinca. Além dos treinos, a rotina de Rachel inclui uma hora de corrida pela orla marítima. A corrida garante também o bronzeado para a personagem. Estava muito branca e o Jorge Fernando exigiu que eu pegasse uma cor, afirma.
A palidez é o resultado de oito meses na Inglaterra, onde Rachel se especializa no teatro shakespeariano. A terra que inventou o futebol, no entanto, não contribuiu para o aprendizado técnico da atriz. Não tinha tempo nem para ver uma partida de futebol, reclama.
O mestrado de Rachel tem duração de um ano mas, após ter estudado durante oito meses, ela deu um tempo no curso para fazer a novela no Brasil. Antes de embarcar, no entanto, Rachel já ensaiava os primeiros chutes de sua personagem. A atriz reuniu dois colegas, um francês e outro alemão, para uns toques de bola no meio de um gramado coberto de neve. Os casacos e cachecóis acabaram atrapalhando a pelada e Rachel não conseguiu dar um chute na direção certa. Os meus amigos não entendiam como uma brasileira podia ser tão ruim no futebol, afirma.
A intimidade com a bola não é a única coisa que Rachel aprende para interpretar Sílvia. É preciso ter também jeito de jogadora, constata. Para incorporar esse jeito, a atriz tem de aprender um modo mais masculinizado de andar e de sentar. A Sílvia é meio machinho, define. A masculinidade é enfatizada até pelo linguajar da personagem. Sílvia não chega a falar palavrões, mas os pronuncia até a metade da palavra. Sempre há alguém por perto para chamar sua atenção.
Outras expressões, no entanto, fazem parte do vocabulário da personagem, como esculhambada e escangalhar. Cada dia encontramos uma nova palavra, afirma Rachel. A atriz assegura que, até o final da novela, a personagem conseguirá fazer com que o público esteja repetindo nas ruas as expressões de Sílvia.


