A atriz Rachel Ripani veio de Londres para interpretar Sílvia, uma jogadora perna-de-pau da novela Zazá, na Globo. ‘‘Estou criando bolhas nos pés’’, reclama a atriz estreante. O motivo do sofrimento são as aulas de futebol que Rachel tem de enfrentar para compor sua personagem.
A falta de prática com a bola não deveria ser empecilho para Rachel, mesmo porque a personagem é uma péssima jogadora. Mas a atriz consegue ser ainda pior do que a personagem. ‘‘Não distinguia um juiz do bandeirinha’’, lamenta. Para melhorar, Rachel assiste aos jogos de futebol feminino na tevê para ficar mais íntima do esporte.
A imagem que a atriz fazia do futebol feminino começa a mudar. ‘‘Sempre pensei que era um bando de mulheres correndo atrás da bola’’, analisa. Hoje, Rachel consegue entender o suficiente para se orgulhar do nível técnico das jogadoras brasileiras. ‘‘Elas têm técnica e muita raça’’,acredita.
A atriz tenta driblar o tormento dos treinos com a bola, através do condicionamento físico. ‘‘Já que não consigo chutar, pelo menos corro atrás da bola’’, brinca. Além dos treinos, a rotina de Rachel inclui uma hora de corrida pela orla marítima. A corrida garante também o bronzeado para a personagem. ‘‘Estava muito branca e o Jorge Fernando exigiu que eu pegasse uma cor’’, afirma.
A palidez é o resultado de oito meses na Inglaterra, onde Rachel se especializa no teatro shakespeariano. A terra que inventou o futebol, no entanto, não contribuiu para o aprendizado técnico da atriz. ‘‘Não tinha tempo nem para ver uma partida de futebol’’, reclama.
O mestrado de Rachel tem duração de um ano mas, após ter estudado durante oito meses, ela deu um tempo no curso para fazer a novela no Brasil. Antes de embarcar, no entanto, Rachel já ensaiava os primeiros chutes de sua personagem. A atriz reuniu dois colegas, um francês e outro alemão, para uns toques de bola no meio de um gramado coberto de neve. Os casacos e cachecóis acabaram atrapalhando a pelada e Rachel não conseguiu dar um chute na direção certa. ‘‘Os meus amigos não entendiam como uma brasileira podia ser tão ruim no futebol’’, afirma.
A intimidade com a bola não é a única coisa que Rachel aprende para interpretar Sílvia. ‘‘É preciso ter também jeito de jogadora’’, constata. Para incorporar esse jeito, a atriz tem de aprender um modo mais masculinizado de andar e de sentar. ‘‘A Sílvia é meio machinho’’, define. A masculinidade é enfatizada até pelo linguajar da personagem. Sílvia não chega a falar palavrões, mas os pronuncia até a metade da palavra. Sempre há alguém por perto para chamar sua atenção.
Outras expressões, no entanto, fazem parte do vocabulário da personagem, como esculhambada e escangalhar. ‘‘Cada dia encontramos uma nova palavra’’, afirma Rachel. A atriz assegura que, até o final da novela, a personagem conseguirá fazer com que o público esteja repetindo nas ruas as expressões de Sílvia.

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