ReproduçãoTambém há exatamente 30 anos, o líder negro Martin Luther King era assassinado por causa de um sonho. Um sonho de liberdade, de igualdade. A bala que atingiu seu pescoço, em um balcão de motel de Memphis, Tennessee, saiu do rifle de James Earl Ray, um simpatizante de organizações racistas que tinha fugido da cadeia alguns meses antes. ‘‘I have a dream’’ (Eu tenho um sonho), dizia Luther King, nascido em 1929. Ele sonhava com o fim do racismo - ‘‘o pecado original da América’’ - da pobreza e da guerra. Esse sonho o levou de Montgomery, no Alabama, onde surgiu o movimento pelos direitos civis, em 1956, a Memphis, onde uma bala pôs fim a uma vida - mas não a um ideal.
Por sua obstinação contra o preconceito de cor, o reverendo Luther King foi preso 19 vezes. Costumava adotar as táticas pacifistas de Mahatma Gandhi para dominar o apartheid no sul dos Estados Unidos, numa estratégia radicalmente oposta às estratégias de guerrilha dos ‘‘Panteras Negras’’, que viriam mais tarde. Sua atuação lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz de 1964 e a promulgação da Lei dos Direitos Civis no mesmo ano, seguida do direito de voto e da moradia digna, conquistado em 1965.
Tais conquistas serviram para alimentar ainda mais o sonho do fim do racismo. Para seus seguidores, houve mais conquistas até hoje, mas ainda há muito a fazer. ‘‘Tudo mudou e nada mudou’’, comentou num de seus discursos o reverendo Joseph Lowery, para quem a luta contra a pobreza e a desigualdade social ainda está longe de ser vencida.
A primeira grande demonstração do black power (poder negro) na América aconteceu em março de 1965, no Alabama, quando Martin Luther King comandou a marcha pelo direito do voto. Era o primeiro passo. O grande teste veio em 1966: levar a luta pelos direitos civis do Sul para o Norte industrializado (Chicago), enfrentar multidões de pessoas hostis e preconceituosas, numa região dividida entre bairros brancos e negros.
‘‘As bombas que caíram no Vietnã vão explodir aqui como desemprego’’, alertava em Memphis, em 68, em campanha pelos pobres. Alí, no balcão do segundo andar do Lorraine Motel, num subúrbio black de Memphis, ele falava ao lado do pastor Ralph Albernathy e do reverendo Jesse Jackson, perto da Graceland de Elvis Presley.
De repente, o tiro, o desespero, o sangue, as lágrimas. James Earl Ray confessou o crime. Em fevereiro do ano passado, seus advogados pediram a reabertura do caso, alegando que, embora tivesse ficado à espreita de King nas últimas semanas de sua vida, Ray não o matou. Mas a Justiça manteve a condenação a prisão perpétua (a confissão ao ser preso o livrou da cadeira elétrica). William Pepper, advogado de Ray, garante que seu cliente foi apenas um ‘‘bode expiatório’’ no caso. E, em entrevistas a TV americana, levantou a hipótese de Luther King ter sido vítima de um complô do governo americano naquela tarde em que o líder negro, perseguido pelo FBI, dizia estas palavras em seu discurso:
‘‘Eu estive no topo da montanha. Eu gostaria de viver uma vida muito longa. Mas eu já vi a terra prometida’’.

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