Floriano Peixoto está livre de amarras. O ator, que sempre escondeu sua timidez em papéis de intensa profundidade, como o contido Frederico de ''Esplendor'', ou mesmo a serelepe Sarita, de ''Explode Coração'', ambos na Globo, pela primeira vez se arrisca na leveza da quase comédia. Na Record há cinco anos, desde que estreou como o Atílio em ''Cidadão Brasileiro'', Floriano agora caminha pela contramão da densidade com uma produção jovial. Na pele de Jonas, diretor da escola de ''Rebelde'', este ator carioca de 52 anos chegou até a se arriscar em tons cômicos e vibrantes para o personagem engravatado, mas hoje se equilibra em matizes suaves no papel que devolveu ao ator sensações perdidas da juventude. ''Hoje aprendi a ser menos velho. Curto mais a vida, me divirto com atores jovens. Relaxo e me estimulo com essas experiências'', avalia.
Desde que você estreou na tevê há 18 anos, na minissérie ''Agosto'', como um capitão, você sempre fez papéis muito densos, com exceção desse Jonas, em ''Rebelde''. O que o fez aceitar um papel numa trama adolescente?
(risos) Confiei muito na conversa que tive com o (diretor) Ivan Zettel. Ele me falou que esse personagem era bem bacana. E, para os diretores, os papéis são sempre bons (risos). Mas fiquei curioso. Talvez por agora ser pai do Pedro, um menino de quase oito anos e conviver com esse ambiente de escola, queria me aproximar desse universo. A referência que a gente tem do tema é ôMalhação". Fui confiante de que esse trabalho seria divertido, leve, se bem que ele nem é tão leve assim. O Jonas dá muita bronca. Tem de segurar a onda dos garotos. Mas é um ambiente muito legal e conviver com atores jovens me estimulou. O personagem foi pintado de uma maneira ótima. Achei que pudesse tirar alguma graça dele. E que iria tirar até mais graça do que estou tirando. Estava começando a exagerar no humor e não deixaram que eu me empolgasse.
Você estava levando o personagem para a comédia e a direção pediu para você mudar o tom do personagem. Como aconteceu?
Eu estava um pouco exagerado, indo quase todo para a comédia e um pouco ''over'' e exagerado, achando que o público seria todo de adolescentes. Sei que eles gostam de um exagero, de uma careta. Meu filho, por exemplo, adora uma forma de interpretar mais expansiva do que a televisão pede. Mas o (diretor) Ivan Zettel disse para eu segurar, que não estava no ''Zorra Total''. De tanto observar os outros atores da produção, vi que realmente ninguém estava nesse ritmo, porque eles já estavam gravando há mais tempo. Então tive de dar uma segurada e hoje tento me policiar. Mas o texto da Margareth Boury é muito bom de se falar. E as situações de embate entre o diretor da escola e os alunos permitiriam essa coisa mais solta. Mas ia ficar muito fora do contexto mesmo. Vi que realmente estava exagerando. Fiquei meio chateadinho no início, mas agora estou curtindo. Acho legal esse tom atual porque não é só para adolescente. Do jeito que estava indo, poderia ficar uma coisa mexicana, acima do tom.
Você nunca havia feito comédia antes. Por quê?
Não sabia que conseguia. Meu desejo de ator era explorar uma coisa que eu nunca tinha feito. Todo mundo fala que sou muito engraçado, muito divertido e nunca me deram um personagem assim. Achei que aqui poderia fazer isso.
Que referências você buscou para essa composição?
Não sou de estudar muito o personagem antes de gravar, de pesquisar no início da novela, compor sozinho. Me baseio nas cenas que recebo. Preciso do outro ator para ver como ele vai reagir aos personagens. Não consigo preparar tudo em casa. Quando vi que o meu figurino era terno e gravata, que era muito sério, vi que podia soltar o personagem na comédia para tentar dar um equilíbrio. O figurino já me segurava a onda. Mas o Ivan (Zettel) achou melhor mesmo não abusar.
Mesmo assim, esse universo adolescente já havia interessado você em algum momento? Já havia parado para assistir a produções do gênero?
Assisto em casa, com meu filho, mas esses seriados são muito ruins. O Pedro adora alguns, tipo o ''iCarly''. Os alunos são exagerados. Ele gosta do clima adolescente, por serem maiores do que ele. Fica de olho naquelas tramas. Acho que estamos fazendo um ''Rebelde'' infinitamente melhor. E ele nos assiste. Sabe a história toda, mas não acompanha diariamente, não tem saco. Às vezes ele me imita (risos).
Você aceitaria esse trabalho se não fosse pai de um menino de oito anos de idade?
Não teria o menor interesse nesse assunto. Acho que realmente nem iria querer fazer. Claro que agora, já sabendo como é, sei que é interessante. Mas antes não teria curiosidade com o tema. Nem gostava tanto de criança. Gostava assim, de longe, passando, mas sem brincar. Não tinha tanto interesse. Fui ser pai relativamente tarde. Não convivia com crianças.
Com essa sua mudança você também deixou para trás toda a densidade que o acompanhava ao longo de sua carreira?
Os autores e diretores me enxergam como um cara denso, coisa que não sou. A impressão que eu tenho é que realmente não sou mais. Fui quando era bem jovem. Hoje me comunico bem, sou mais expansivo, menos tímido. Aos 27 anos de idade, fui fazer teatro. Tudo para mim aconteceu relativamente tarde. Fui casar aos 33 anos e tive filho bem mais tarde. Tenho uma imagem de sério, mas hoje sou menos. Atualmente sou bem mais jovem do que na juventude. O teatro me deu isso.
Antes de fazer teatro, aos 27 anos, você era jornalista. O que fez você procurar a atuação?
Quando fui fazer teatro, gostava de escrever, mas não estava satisfeito com as críticas que recebia com as minhas matérias na redação do ''Jornal do Brasil''. Queriam que eu fosse mais objetivo quando escrevesse sobre um buraco na rua e eu floreava muito, era artístico no meu texto. Era também muito tímido para fazer entrevistas. Tinha interesse em escrever para teatro, queria me meter em uma coisa mais artística. Fui com uma amiga fazer umas aulas de teatro e me encantei. Três meses depois, fiz uma peça. Minha timidez não existia no palco. Vi que era aquilo que eu queria. Tive muita sorte. Logo fiz uma peça profissionalmente e a tevê me chamou.
Você foi chamado para fazer ''Renascer'' e ''Irmãos Coragem'', mas recusou duas vezes estrear em novelas. Por quê?
É verdade.... Eu tinha preconceito com a televisão, achava uma coisa menor. Eu estava muito bem no teatro. Muita gente tinha preconceito, mas fazia. Logo a companhia de teatro que eu estava só queria montar peças com atores de tevê e sofri muito com aquilo. Em seguida, a Glória Perez me chamou para fazer um teste para a Sarita. Não entendi como aconteceu aquilo. Como eu, com voz grossa, peludo e com barba era chamado para fazer um teste para interpretar um travesti? Era o cara menos indicado para isso. O que me ajudou era que eles queriam uma pessoa desconhecida.
Foi quando você fez a Sarita, seu papel de maior destaque na tevê até hoje. Foi um susto tanto sucesso de um dia para o outro?
Muito! Até hoje as pessoas falam nela. Conheci a popularidade de um personagem de novela das oito de um capítulo para o outro. Botaram um cabelão em mim. No dia seguinte da estreia, fui numa loja de eletrodomésticos em Copacabana e começou a juntar gente. Fiquei nervoso com aquilo, sem graça, baixei a cabeça e fui embora sem comprar nada. A partir dali, a novela foi seguindo e foi uma coisa muito forte. No dia seguinte que acabou a novela, tirei o cabelão e ninguém me reconhecia. Foi incrível. Nas novelas seguintes, foi meio termo. Nunca mais tive um ''boom'' daqueles. Foi uma experiência única.

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