Depois da estréia do espetáculo ‘‘Um Certo Olhar - Pessoa e Lorca’’ no 8º Festival de Teatro de Curitiba, o ator Raul Cortez se prepara para mostrar o monólogo em São Paulo, no dia 7, inaugurando uma nova sala do Teatro Alfa Real. Para 1999, os projetos de Cortez incluem uma estréia no cinema e mais uma novela na televisão.
Raul Cortez chegou a Curitiba, na semana passada, ansioso para ver o resultado daquele que considerava um trabalho muito prazeroso - e que concretizava a realização de um antigo projeto. Para a platéia, a surpresa foi boa. Um espetáculo sensível - calcado no encontro de dois grandes nomes (Fernando Pessoa e Federico Garcia Lorca) - que ressaltou uma abordagem poética da alma humana, dos encontros e desencontros, do crepúsculo, da morte.
A incógnita desse encontro dos dois poetas no palco era até então, para Cortez, um desafio. ‘‘Era saber como diferenciar, na dramatização, um do outro. Mas no momento em que a gente vai trazendo o universo dos poemas, o corpo vai respondendo. Assim, destacaram-se a passionalidade de Lorca e a introspecção de Pessoa.’’
Com direção de José Possi Neto, o espetáculo não é um recital de poesia - como faz questão de frisar Raul Cortez. ‘‘Cada poema foi usado para fazer um percurso da alma humana’’, define.
A montagem de ‘‘Um Certo Olhar...’’ começou em janeiro, mas o projeto de Cortez é antigo. ‘‘Há muitos anos fiz uma longa viagem à Espanha para conhecer um pouco mais de Lorca. Depois, acabei indo para Portugal com Cacilda Becker e tive mais contato com a obra de Pessoa. Mas em 83 tive acesso a um material muito interessante sobre a América Latina e montei ‘‘Américas’’, lembra.
A concretização do projeto veio agora, anos depois, num momento em que Cortez optou por trabalhar o resgate da palavra. ‘‘Está faltando poesia na vida. ‘‘Mais que isso. Está faltando a palavra, a comunicação entre as pessoas’’, resume.
Para este ano, a agenda de Cortez com ‘‘Um Certo Olhar...’’ traz ainda uma apresentação no Festival de Teatro do Mercosul, no mês de maio, em Montevidéu, e outra no Festival de Teatro do Porto, em Portugal, no final do ano.
Enquanto cumpre temporada em São Paulo, Raul Cortez aguarda o lançamento do filme ‘‘Lavoura Arcaica’’, uma adaptação para o cinema do livro homônimo de Raduan Nassar, com direção de Luiz Fernando Carvalho. ‘‘Neste filme eu faço o pai, o avô, o grande rei da fábula’’, conta o ator. O texto, que em síntese trata dos sentimentos humanos, foi escrito em 1975 e relançado em 1996.
Raul Cortez explica que o processo de trabalho em ‘‘Lavoura Arcaica’’ foi uma experiência única. ‘‘Fiquei seis meses numa fazenda no interior de Minas Gerais - capinando, tirando leite de vaca, criando galinhas...’’ Além disso, o ator participava de palestras, depoimentos e ensaios. Foram quatro meses de preparação e mais dois de filmagens. ‘‘Tive aulas nesses seis meses e tudo foi aplicado no meu trabalho. Uma experiência absolutamente única.’’
Raul Cortez tinha trabalhado anteriormente com Luiz Fernando Carvalho em ‘‘O Rei do Gado’’, novela que está sendo reprisada pela Rede Globo. Este ano, eles trabalham juntos em mais uma produção para a tevê. Cortez está escalado para fazer a próxima novela das oito da emissora, escrita por Benedito Rui Barbosa e dirigida por Carvalho. A nova produção da Globo começa a ser gravada em julho ou agosto. Sem mais detalhes, Cortez apenas adianta que já estão confirmados no elenco os atores Antonio Fagundes e Ana Paula Arósio.
Assim que começarem as gravações, Raul Cortez pretende dar um tempo ao teatro, pois não gostaria de fazer dobradinha de ‘‘Um Certo Olhar...’’ com a novela. ‘‘Não quero conciliar as duas coisas. Nunca mais eu faço isso. A novela também tem que ser tratada com carinho. É tanta gente que assiste, no Brasil inteiro, que tem que ser bem-feita, tem que ter um carinho especial’’, diz.
Profissional de televisão, cinema e teatro, Raul Cortez carrega uma imagem de ‘‘pessoa difícil’’. Ele ri e responde: ‘‘Eu acho que um pouco disso é folclore, coisas que as pessoas falam. Mas eu me sinto contente em saber que incomodo. Eu falo o que acho e isso tem o seu preço. Já o meu temperamento... sou espanhol de pai e mãe!’’, finaliza.

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