No limite poético de pessoa e lorca
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de março de 1999
Jackeline Seglin 
Depois da estréia do espetáculo Um Certo Olhar - Pessoa e Lorca no 8º Festival de Teatro de Curitiba, o ator Raul Cortez se prepara para mostrar o monólogo em São Paulo, no dia 7, inaugurando uma nova sala do Teatro Alfa Real. Para 1999, os projetos de Cortez incluem uma estréia no cinema e mais uma novela na televisão.
Raul Cortez chegou a Curitiba, na semana passada, ansioso para ver o resultado daquele que considerava um trabalho muito prazeroso - e que concretizava a realização de um antigo projeto. Para a platéia, a surpresa foi boa. Um espetáculo sensível - calcado no encontro de dois grandes nomes (Fernando Pessoa e Federico Garcia Lorca) - que ressaltou uma abordagem poética da alma humana, dos encontros e desencontros, do crepúsculo, da morte.
A incógnita desse encontro dos dois poetas no palco era até então, para Cortez, um desafio. Era saber como diferenciar, na dramatização, um do outro. Mas no momento em que a gente vai trazendo o universo dos poemas, o corpo vai respondendo. Assim, destacaram-se a passionalidade de Lorca e a introspecção de Pessoa.
Com direção de José Possi Neto, o espetáculo não é um recital de poesia - como faz questão de frisar Raul Cortez. Cada poema foi usado para fazer um percurso da alma humana, define.
A montagem de Um Certo Olhar... começou em janeiro, mas o projeto de Cortez é antigo. Há muitos anos fiz uma longa viagem à Espanha para conhecer um pouco mais de Lorca. Depois, acabei indo para Portugal com Cacilda Becker e tive mais contato com a obra de Pessoa. Mas em 83 tive acesso a um material muito interessante sobre a América Latina e montei Américas, lembra.
A concretização do projeto veio agora, anos depois, num momento em que Cortez optou por trabalhar o resgate da palavra. Está faltando poesia na vida. Mais que isso. Está faltando a palavra, a comunicação entre as pessoas, resume.
Para este ano, a agenda de Cortez com Um Certo Olhar... traz ainda uma apresentação no Festival de Teatro do Mercosul, no mês de maio, em Montevidéu, e outra no Festival de Teatro do Porto, em Portugal, no final do ano.
Enquanto cumpre temporada em São Paulo, Raul Cortez aguarda o lançamento do filme Lavoura Arcaica, uma adaptação para o cinema do livro homônimo de Raduan Nassar, com direção de Luiz Fernando Carvalho. Neste filme eu faço o pai, o avô, o grande rei da fábula, conta o ator. O texto, que em síntese trata dos sentimentos humanos, foi escrito em 1975 e relançado em 1996.
Raul Cortez explica que o processo de trabalho em Lavoura Arcaica foi uma experiência única. Fiquei seis meses numa fazenda no interior de Minas Gerais - capinando, tirando leite de vaca, criando galinhas... Além disso, o ator participava de palestras, depoimentos e ensaios. Foram quatro meses de preparação e mais dois de filmagens. Tive aulas nesses seis meses e tudo foi aplicado no meu trabalho. Uma experiência absolutamente única.
Raul Cortez tinha trabalhado anteriormente com Luiz Fernando Carvalho em O Rei do Gado, novela que está sendo reprisada pela Rede Globo. Este ano, eles trabalham juntos em mais uma produção para a tevê. Cortez está escalado para fazer a próxima novela das oito da emissora, escrita por Benedito Rui Barbosa e dirigida por Carvalho. A nova produção da Globo começa a ser gravada em julho ou agosto. Sem mais detalhes, Cortez apenas adianta que já estão confirmados no elenco os atores Antonio Fagundes e Ana Paula Arósio.
Assim que começarem as gravações, Raul Cortez pretende dar um tempo ao teatro, pois não gostaria de fazer dobradinha de Um Certo Olhar... com a novela. Não quero conciliar as duas coisas. Nunca mais eu faço isso. A novela também tem que ser tratada com carinho. É tanta gente que assiste, no Brasil inteiro, que tem que ser bem-feita, tem que ter um carinho especial, diz.
Profissional de televisão, cinema e teatro, Raul Cortez carrega uma imagem de pessoa difícil. Ele ri e responde: Eu acho que um pouco disso é folclore, coisas que as pessoas falam. Mas eu me sinto contente em saber que incomodo. Eu falo o que acho e isso tem o seu preço. Já o meu temperamento... sou espanhol de pai e mãe!, finaliza.


