Nas entranhas de uma década marcada pelas aparências, em que uma fatia da rebeldia de grupos ou músicos tidos como ‘‘alternativos’’ se rendeu à sedução do mercado, há um nicho que subsiste com dificuldade, persistente na opção de seguir o caminho contrário. Ex-Os Mulheres Negras e Fanzine, Maurício Pereira já esteve perto do sucesso e seguiu a linha marginal, driblando a leva que caiu nas graças da indústria fonográfica.
Seu trabalho de divulgação, lento e constante, tem apoio da Atração Fonográfica, gravadora que lançou ‘‘Mergulhar na Surpresa’’ - mais recente álbum do saxofonista - no final do ano passado. Mas só agora o disco começa a aparecer fora do eixo Rio-São Paulo, auxiliado pela tecnologia da Internet, um instrumento descoberto pelo músico para manter contato com o público e preservar sua liberdade de expressão sem recorrer as hostes do mercado. Não se trata de não vender discos, mas de preservar suas características como músico e compositor.
‘‘Mergulhar na Surpresa’’ é um trabalho acústico de quem já utilizou muito a eletrônica - especialmente com Os Mulheres Negras, ao lado de André Abujamra, hoje no Karnak. A concepção acústica foge ao conceito MTV: não se trata de uma simples coletânea adaptada para o formato.
O disco marca o encontro do cantor, saxofonista, compositor e arranjador Maurício Pereira com o pianista Daniel Szafran. Com um estilo que às vezes lembra o ragtime, blues, jazz e rock, Szafran conhece a fundo as melodias de Pereira. A proximidade dos dois é perceptível e permeia todo o resultado final, em que o compositor destila uma mistura de crônica pessimista do cotidiano com toques de bom humor, temperada por melodias consistentes.
Gravado praticamente ao vivo, o CD de Maurício Pereira ganhou propositalmente contornos paulistanos, do cidadão comum cercado pelo furacão de uma metrópole que o satisfaz e, ao mesmo tempo, o desespera. Há espaço para detalhes como tropeçar nos móveis enquanto se procura o interruptor, versos poéticos e até letras em italiano e espanhol. Mas a angústia de paulistano em busca de identidade aflora em trechos de melancolia.
‘‘Quando resolvi fazer um disco sobre voz e piano, não tive ilusões com o comércio. É um disco que está chegando devagar, mas que foi feito para durar, e que ficou como eu queria, mantendo o calor da interpretação’’, disse Maurício Pereira, em entrevista à Folha2.
O CD só se tornou possível graças a uma convivência de seis anos entre os instrumentistas o que permitiu, em algumas músicas, a gravação de quatro faixas de piano. ‘‘Não tive medo de estar com poucos instrumentos porque havia uma densidade empurrando essa formação, eu queria o calor de poder brincar com o andamento e a dinâmica da composição. A potência não depende da parafernália’’, acentua.
Mergulhado numa linha tênue em que equilibra contraditoriamente pessimismo e otimismo, Maurício Pereira é um músico meticuloso que não hesita em injetar consistência a uma música pop carente de conceitos. Mas apesar da presença de rock e pop nas faixas do CD, o que se sobressai é o estilo do instrumentista, que não economiza improvisos.
‘‘Não tenho medo do lodo, mas por outro lado, tento ser positivo, criativo. Isso tem a ver com o fato de ser paulistano, a vida aqui é cruel, sentimos o capitalismo no que ele tem de melhor e de pior. A brasilidade é contraditória: um País rico onde o povo não é rico’’, explica, ressaltando a ambiguidade de sua obra.
Se a opção pelo não comercial conforta a consciência, atinge o bolso. As dificuldades de se manter como músico profissional às vezes acentuam o pessimismo, mas Maurício Pereira está se acostumando a esta corda bamba: ‘‘Quando você não tem espaço no comércio, tudo anda devagar, há dificuldades em sobreviver e isso se reflete na música. Nos Estados Unidos, o Frank Zappa ainda vende. O independente lá vende, aqui morre de fome. Tenho que fazer coisas paralelas para sobreviver e garantir a minha liberdade de expressão. Isso traz muita angústia, mas não me arrependo.’’
Em contrapartida, Pereira mantém um público fiel que ajuda a segurar o ânimo. Afastado da grande mídia e elogiado pela crítica, o compositor encontrou na Internet um palco sem restrições. ‘‘No eixo Rio-São Paulo, quem não faz algo ‘moderno’ não conquista muito espaço. Fiz há dois anos o primeiro show pela Internet do Brasil, acessado por 40 mil pessoas. A Internet então surge como uma resistência que me coloca em contato com todo o mundo’’, afirma.
As críticas à mídia são árduas: ‘‘Houve uma massificação grande, a mídia incorporou a rebeldia e passa a impressão de que as pessoas estão consumindo coisas libertárias. O espaço que havia para os alternativos no mercado está sendo preenchido dentro das próprias gravadoras.’’
Em meio às dificuldades de divulgação e os conflitos de sobreviver longe dos holofotes, Maurício Pereira realizou um disco cuidadoso, que segue a contramão do pop nacional, se aproxima do rock com criatividade e ainda traz elementos do jazz contemporâneo - há ainda moda de viola e samba - completamente diferente do que anda surgindo por aí. O disco pode ser encomendado pelo telefone (011) 210-4194. A homepage de Maurício Pereira fica no seguinte endereço: www.dialdata.com.br/mauriciopereira/.

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