No limite das contradições
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de junho de 1999
Ranulfo Pedreiro 
Nas entranhas de uma década marcada pelas aparências, em que uma fatia da rebeldia de grupos ou músicos tidos como alternativos se rendeu à sedução do mercado, há um nicho que subsiste com dificuldade, persistente na opção de seguir o caminho contrário. Ex-Os Mulheres Negras e Fanzine, Maurício Pereira já esteve perto do sucesso e seguiu a linha marginal, driblando a leva que caiu nas graças da indústria fonográfica.
Seu trabalho de divulgação, lento e constante, tem apoio da Atração Fonográfica, gravadora que lançou Mergulhar na Surpresa - mais recente álbum do saxofonista - no final do ano passado. Mas só agora o disco começa a aparecer fora do eixo Rio-São Paulo, auxiliado pela tecnologia da Internet, um instrumento descoberto pelo músico para manter contato com o público e preservar sua liberdade de expressão sem recorrer as hostes do mercado. Não se trata de não vender discos, mas de preservar suas características como músico e compositor.
Mergulhar na Surpresa é um trabalho acústico de quem já utilizou muito a eletrônica - especialmente com Os Mulheres Negras, ao lado de André Abujamra, hoje no Karnak. A concepção acústica foge ao conceito MTV: não se trata de uma simples coletânea adaptada para o formato.
O disco marca o encontro do cantor, saxofonista, compositor e arranjador Maurício Pereira com o pianista Daniel Szafran. Com um estilo que às vezes lembra o ragtime, blues, jazz e rock, Szafran conhece a fundo as melodias de Pereira. A proximidade dos dois é perceptível e permeia todo o resultado final, em que o compositor destila uma mistura de crônica pessimista do cotidiano com toques de bom humor, temperada por melodias consistentes.
Gravado praticamente ao vivo, o CD de Maurício Pereira ganhou propositalmente contornos paulistanos, do cidadão comum cercado pelo furacão de uma metrópole que o satisfaz e, ao mesmo tempo, o desespera. Há espaço para detalhes como tropeçar nos móveis enquanto se procura o interruptor, versos poéticos e até letras em italiano e espanhol. Mas a angústia de paulistano em busca de identidade aflora em trechos de melancolia.
Quando resolvi fazer um disco sobre voz e piano, não tive ilusões com o comércio. É um disco que está chegando devagar, mas que foi feito para durar, e que ficou como eu queria, mantendo o calor da interpretação, disse Maurício Pereira, em entrevista à Folha2.
O CD só se tornou possível graças a uma convivência de seis anos entre os instrumentistas o que permitiu, em algumas músicas, a gravação de quatro faixas de piano. Não tive medo de estar com poucos instrumentos porque havia uma densidade empurrando essa formação, eu queria o calor de poder brincar com o andamento e a dinâmica da composição. A potência não depende da parafernália, acentua.
Mergulhado numa linha tênue em que equilibra contraditoriamente pessimismo e otimismo, Maurício Pereira é um músico meticuloso que não hesita em injetar consistência a uma música pop carente de conceitos. Mas apesar da presença de rock e pop nas faixas do CD, o que se sobressai é o estilo do instrumentista, que não economiza improvisos.
Não tenho medo do lodo, mas por outro lado, tento ser positivo, criativo. Isso tem a ver com o fato de ser paulistano, a vida aqui é cruel, sentimos o capitalismo no que ele tem de melhor e de pior. A brasilidade é contraditória: um País rico onde o povo não é rico, explica, ressaltando a ambiguidade de sua obra.
Se a opção pelo não comercial conforta a consciência, atinge o bolso. As dificuldades de se manter como músico profissional às vezes acentuam o pessimismo, mas Maurício Pereira está se acostumando a esta corda bamba: Quando você não tem espaço no comércio, tudo anda devagar, há dificuldades em sobreviver e isso se reflete na música. Nos Estados Unidos, o Frank Zappa ainda vende. O independente lá vende, aqui morre de fome. Tenho que fazer coisas paralelas para sobreviver e garantir a minha liberdade de expressão. Isso traz muita angústia, mas não me arrependo.
Em contrapartida, Pereira mantém um público fiel que ajuda a segurar o ânimo. Afastado da grande mídia e elogiado pela crítica, o compositor encontrou na Internet um palco sem restrições. No eixo Rio-São Paulo, quem não faz algo moderno não conquista muito espaço. Fiz há dois anos o primeiro show pela Internet do Brasil, acessado por 40 mil pessoas. A Internet então surge como uma resistência que me coloca em contato com todo o mundo, afirma.
As críticas à mídia são árduas: Houve uma massificação grande, a mídia incorporou a rebeldia e passa a impressão de que as pessoas estão consumindo coisas libertárias. O espaço que havia para os alternativos no mercado está sendo preenchido dentro das próprias gravadoras.
Em meio às dificuldades de divulgação e os conflitos de sobreviver longe dos holofotes, Maurício Pereira realizou um disco cuidadoso, que segue a contramão do pop nacional, se aproxima do rock com criatividade e ainda traz elementos do jazz contemporâneo - há ainda moda de viola e samba - completamente diferente do que anda surgindo por aí. O disco pode ser encomendado pelo telefone (011) 210-4194. A homepage de Maurício Pereira fica no seguinte endereço: www.dialdata.com.br/mauriciopereira/.


