Longe da bancada do ''Jornal Nacional'', William Bonner parece uma pessoa descontraída. O jornalista de 37 anos fala palavrões, faz inúmeras piadas com a sua equipe e não lembra nem um pouco o ar preocupado que ganha à medida que vai se aproximando a transmissão do telejornal mais antigo e de maior audiência da Globo. Também é evidente o entusiasmo de Bonner por completar no mês de setembro dois anos como editor-chefe do ''Jornal Nacional''. ''Se pedissem para escolher qualquer edição do ''JN'' da minha gestão que me orgulhe, escolheria qualquer uma de olhos fechados'', garante Bonner, com um sorriso de satisfação que deixa entrever o discreto aparelho nos dentes que não se percebe no vídeo.
O apresentador não esconde o grande susto que levou ao substituir pela primeira vez Cid Moreira no ''Jornal Nacional''. ''Foi um choque'', lembra. Bonner também garante que tinha seis anos incompletos quando ouviu seus pais comentarem no jantar que iria estrear um novo telejornal na Globo. Era o ''Jornal Nacional'', que ontem completou 32 anos de existência. ''Depois do jantar a minha família se reuniu para ver o telejornal. Não lembro da edição, claro, mas da situação e do ambiente'', afirma o paulistano de voz chamativamente grave.
Casado desde 1990 com Fátima Bernardes, também apresentadora do ''Jornal Nacional'', Bonner faz questão de deixar claro que como editor-chefe tem um principal objetivo: fazer com que o ''Jornal Nacional'' mostre todas as noites aquilo que de mais importante aconteceu no Brasil e no mundo. ''As matérias que se encaixam neste objetivo a gente chama de F4'', explica Bonner. A expressão surgiu porque F4 é o comando do teclado do computador que o apresentador e o editor-executivo Renato Ribeiro usam para a aprovação de matérias no fechamento do ''Jornal Nacional''.
Apesar do bom-humor ao falar de seu trabalho, Bonner confessa que não é fácil produzir o ''Jornal Nacional'', telejornal que mantém uma média de 40 pontos. ''Um erro no 'JN'' pode afetar a vida de milhões de brasileiros e a imprensa sempre quer pegar algum erro nosso. Somos vidraça'', reclama o apresentador.

Você está desde 1996 na apresentação do ''JN''. O apresentador do ''JN'' tem prazo de validade?
O apresentador não sei, mas o editor-chefe acho que tem. Não só do ''JN'', mas de todos os telejornais. Com o tempo, o sujeito que está no comando tende a fazer com que o jornal fique muito parecido com ele e isso pode prejudicar o telejornal a longo prazo. Mas não tenho a mínima idéia de qual é este tempo de validade. Já apresentar o ''JN'' para mim é só a fase terminal de um processo que começa todos os dias às 10 e só termina 30 minutos após o boa-noite final do ''JN''. Hoje vejo com mais naturalidade esta responsabilidade, mas já me assustei por estar no ''JN''.

Como assim?
Me assustei a primeira vez que substituí o Sérgio Chapelin no ''JN'' como interino. Sentei para fazer o telejornal e à minha direita estava o Cid Moreira. Estava com ele atrás da bancada do ''JN'' e então atinei para o que havia acontecido na minha vida. De repente estava apresentando o ''JN''. Foi um choque. No dia que estreei como apresentador efetivo com a Lilian Wite Fibe deu um frio na barriga também.

Hoje não existem outros telejornais no horário do ''JN''. Como vocês lidam com a concorrência?
O ''JN'' é um líder de audiência há 32 anos e, se depender de mim, não deixará de ser. Temos o princípio de que o espectador liga no ''JN'' atrás do que a gente chama de ''F4'': mostrar todas as noites aquilo que de mais importante aconteceu no Brasil e no mundo naquele dia. Não faço sensacionalismo, que para mim é, em busca do sensacional, publicar coisas que não têm a menor relevância.

Não faz falta uma experiência como repórter para você exercer a editoria-chefe do ''JN''?
Realmente entrei pela porta dos fundos. Não é o caminho normal e claro que foi muito mais doloroso. Mas em 1986, quando fui convidado para deixar a Band, a Globo sabia que eu não era repórter. Então fui aprender edição para ajudar no fechamento dos telejornais, pois não queriam mais ninguém que só apresentasse. Quando era editor-chefe do ''Jornal Hoje'', em 1993, é que comecei a apurar pelo telefone num dia que precisava de uma informação de Brasília e não tinha. Faço isso até hoje no ''JN'' quando é preciso. Foi assim com as primeiras informações do Ministro Pedro Parente sobre o apagão e a declaração do João Paulo Diniz sobre o acidente do helicóptero. Tive de aprender a agir como repórter muito tempo após ter entrado na profissão.

Não é complicado lidar com repórteres famosos sem ter esta experiência?
Sou o editor-chefe e não tenho este problema. O fato é que há uma relação de mútuo respeito com todos os repórteres, mais experimentados ou não. Porque não cheguei a chefia do ''JN'' pedindo o cargo e sim porque os meus superiores hierárquicos queriam. Após um mês como interino, virei editor-chefe do ''JN'' porque acreditaram no que defendia. Ou seja: que o ''JN'' deveria dar mais ''F4''. Antes de assumir a editoria-chefe, deram destaque para o nascimento da Sasha, por exemplo.

Você não concordou com o destaque?
Foi uma das poucas vezes que não concordei com o que apresentei no ''JN''. O telejornal tinha mais espaço para matérias sobre comportamento, mas deixou de ter quando assumi em setembro de 1999. Então o ''JN'' voltou a transitar mais por Brasília e tratar mais de política e economia. Hoje em dia, quando me vendem uma pauta sobre comportamento, digo que é para a pessoa ir a primeira porta à esquerda, que é do ''Fantástico''.

Pessoalmente você acha que o Ricardo Teixeira, presidente da CBF, alterou o horário do jogo da seleção contra a Argentina para atingir justamente o ''JN'' e prejudicar a Globo, já que é o principal telejornal da emissora e vai afetar também a exibição da novela das oito?
Não sei se no caso da seleção foi de propósito. Oficialmente o presidente da CBF diz que não. Mas prefiro não tratar do tema da CBF, até porque as denúncias sobre o Ricardo Teixeira foram publicadas pelo ''Globo Repórter''.

Se um parente da família Marinho fosse sequestrado, você também daria a notícia no ''JN'', como aconteceu com a filha do Silvio Santos?
Também. Este procedimento está na linha editorial da emissora, até mesmo para não haver dúvida de como agir nestes casos.

Você é contra o apresentador fazer comentários sobre a notícia?
Comentário é uma invenção do Boris Casoy, que lançou a palavra âncora no Brasil.

O Renato Machado e a Ana Paulo Padrão também fazem comentários.
Claro. Vai ver o tempo de produção do ''Bom Dia Brasil'' e se o público não é radicalmente diferente do ''JN''. Acho que o espectador do ''JN'' não está atrás de comentários, mas saber o que mais importante aconteceu no Brasil e no mundo.

O ''JN'' não tem tempo para comentários?
Não cabe. Mas defendo outra coisa. Os temas que escolho, a ordem que vai ao ar e a maneira de cobrir o assunto leva o espectador a formar a opinião dele. Não dá para apresentar todo o telejornal para chegar no fim e dizer ''isso é uma vergonha''. Não preciso dizer isso. Não estou criticando o Boris ou quem faça isso. Só é outra linha. As pessoas que assistem ao Boris querem ouvir o comentário do Boris. Mas a audiência do ''JN'' é 3, 5 ou 8 vezes maior que a dele. Não é fácil fazer o ''JN''. Porque é vidraça. Tá todo mundo querendo pegar a gente. Revistas, jornais...

Como você lida com as críticas?
Depende, mas lido pessimamente. Uma coisa que faço é responder as críticas que chegam no meu e-mail. Lógico que cometi erros. Embarreirei por algum tempo, por exemplo, a questão dos produtos que tiveram seus pesos e medidas reduzidos e que o preço continuou o mesmo. Como no caso dos rolos de papéis higiênicos. Avaliei mal. Não podemos errar no ''JN'', porque pode produzir danos terríveis. Na teoria, não há espaço para erros.

O fato de você e a Fátima serem casados influencia de que maneira no trabalho no ''JN''?
Zero. Quando conheci a Fátima, a gente trabalhava juntos em, 1989 no ''Jornal da Globo''. Nos casamos em 90. Em 93, deixamos de trabalhar juntos. Em 98, voltamos a trabalhar juntos porque o Evandro chamou a Fátima para o cargo. Ele só me disse: ''acabo de chamar a Fátima para o ''JN''. Ela aceitou''. Aí eu disse: ''Evandro, você quer que eu faça o quê? Destrua o meu casamento e diga que isto é um absurdo''. E ele riu e assim foi feito. Mas o público sabe que não vai ver olharzinho ou mãozinha dada no dia dos namorados, como tinha gente que fazia isso.

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