No fio da espada e do arame
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sexta-feira, 05 de abril de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
À saída do cinema, o que resta de memorável nesta adaptação a mais recente de uma longa lista de visitas mais ou menos féis do clássico de Alexandre Dumas, em lançamento nacional neste fim de semana? Com certeza não é a presença do top-model Justin Chambers no papel de DArtagnan, o popular herói setecentista. Também não é a colaboração entre o diretor-artesão Peter Hyams e o especialista Xin-Xin Xiong, o mago dos arames que correu mundo articulando os espadachins voadores em Era Uma Vez na China. Nem é o argumento literariamente pouco ortodoxo, aqui trabalhado com liberalidade pelo roteirista Gene Quintano o filme está mais para um thriller estilo kung-fu, centrado na missão vingadora de espadachim-acróbata DArtagnan contra o assassino de seus pais. Ou tampouco a sempre luminosa Catherine Deneuve investida em Ana de Áustria.
Quem afinal pode justificar uma futura referência com algum resquício de entusiasmo é a presença de Tim Roth. Recém-saído da máscara malévola de Thade, o general-chimpanzé criado por Tim Burton na refilmagem de O Planeta dos Macacos, Roth empalidece os mais elaborados vilões da recente galeria cinematográfica. Em A Vingança do Mosqueteiro (veja a programação de na página 2) ele é Fabre, uma espécie de capataz do mal a serviço do corrupto Cardeal Richelieu (Stephen Rea). Pleno de torpezas e vilanias, Fabre pode ser um monstro inominável, uma chaga incurável, mas cada momento em que surge na tela é eletrizante.
E A Vingança do Mosqueteiro tem extrema necessidade de alguém como ele, a funcionar como contrapeso em uma balança descompensada pela vacuidade da grande maioria dos personagens em trânsito. Perfil, frente e costas dos três mosqueteiros, na visão de Dumas, requerem habilidades simultâneas para o heroísmo e para a comédia pastelão, e o trio de atores interpretando Athos, Porthos e Aramis Nick Moran, Steven Spiers e Jan Gregor Kemp cumpre suas tarefas de acordo com estas regras, embora sem brilho notável. Mas há um vácuo bem no coração de The Musketeer, uma lacuna em nenhum momento preenchida: o anticarismático Chambers, que penosamente resmunga seus textos escondido sob o chapéu. Além disso, nenhuma química entre DArtagnan e sua namoradinha-ninfeta Francesca (Mena Suvari, não importa quantos anos tenha, sempre vai parecer 15) é percebida pela platéia adulta, já que a relação não ultrapassa o ideal infantil de amor romântico.
E pensando bem, o alvo a tirar algum proveito desta aventura com apreciável nível de produção eficiente recriação de época, locações no sudoeste da França, esmerada textura na iluminação em cores acaba sendo mesmo a criançada. Espadas ferem e disparos de mosquetes podem liquidar extras ocasionais, mas nem sinal de uma gota de sangue sequer em meio a toda a violência. É tudo irreal, um faz-de-conta à moda pugilística de Power Rangers, em que um amontoado de bandidos e mais um ou três mocinhos são eliminados sem cerimônia sabe-se que estão mortos porque caem dos cavalos ou são atirados longe em meio à fumaça de uma explosão. Mas nunca temos que pensar sobre o que a morte realmente significa. Para a garotada, pelo menos três sequências de esgrima coreografada ao melhor estilo O Tigre e o Dragão marcam este até certo ponto previsível casamento entre a Hong Kong das artes marciais e o tradicional capa-e-espada hollywoodiano os duelos na torre, na taverna e na cozinha do rei.


