À saída do cinema, o que resta de memorável nesta adaptação – a mais recente de uma longa lista de visitas mais ou menos féis – do clássico de Alexandre Dumas, em lançamento nacional neste fim de semana? Com certeza não é a presença do top-model Justin Chambers no papel de D’Artagnan, o popular herói setecentista. Também não é a colaboração entre o diretor-artesão Peter Hyams e o especialista Xin-Xin Xiong, o mago dos arames que correu mundo articulando os espadachins voadores em ‘‘Era Uma Vez na China’’. Nem é o argumento literariamente pouco ortodoxo, aqui trabalhado com liberalidade pelo roteirista Gene Quintano – o filme está mais para um ‘‘thriller’’ estilo kung-fu, centrado na missão vingadora de espadachim-acróbata D’Artagnan contra o assassino de seus pais. Ou tampouco a sempre luminosa Catherine Deneuve investida em Ana de Áustria.
Quem afinal pode justificar uma futura referência com algum resquício de entusiasmo é a presença de Tim Roth. Recém-saído da máscara malévola de Thade, o general-chimpanzé criado por Tim Burton na refilmagem de ‘‘O Planeta dos Macacos’’, Roth empalidece os mais elaborados vilões da recente galeria cinematográfica. Em ‘‘A Vingança do Mosqueteiro’’ (veja a programação de na página 2) ele é Fabre, uma espécie de capataz do mal a serviço do corrupto Cardeal Richelieu (Stephen Rea). Pleno de torpezas e vilanias, Fabre pode ser um monstro inominável, uma chaga incurável, mas cada momento em que surge na tela é eletrizante.
E ‘‘A Vingança do Mosqueteiro’’ tem extrema necessidade de alguém como ele, a funcionar como contrapeso em uma balança descompensada pela vacuidade da grande maioria dos personagens em trânsito. Perfil, frente e costas dos três mosqueteiros, na visão de Dumas, requerem habilidades simultâneas para o heroísmo e para a comédia pastelão, e o trio de atores interpretando Athos, Porthos e Aramis – Nick Moran, Steven Spiers e Jan Gregor Kemp – cumpre suas tarefas de acordo com estas regras, embora sem brilho notável. Mas há um vácuo bem no coração de ‘‘The Musketeer’’, uma lacuna em nenhum momento preenchida: o anticarismático Chambers, que penosamente resmunga seus textos escondido sob o chapéu. Além disso, nenhuma química entre D’Artagnan e sua namoradinha-ninfeta Francesca (Mena Suvari, não importa quantos anos tenha, sempre vai parecer 15) é percebida pela platéia adulta, já que a relação não ultrapassa o ideal infantil de amor romântico.
E pensando bem, o alvo a tirar algum proveito desta aventura com apreciável nível de produção – eficiente recriação de época, locações no sudoeste da França, esmerada textura na iluminação em cores – acaba sendo mesmo a criançada. Espadas ferem e disparos de mosquetes podem liquidar extras ocasionais, mas nem sinal de uma gota de sangue sequer em meio a toda a violência. É tudo irreal, um faz-de-conta à moda pugilística de ‘‘Power Rangers’’, em que um amontoado de bandidos e mais um ou três mocinhos são eliminados sem cerimônia – sabe-se que estão mortos porque caem dos cavalos ou são atirados longe em meio à fumaça de uma explosão. Mas nunca temos que pensar sobre o que a morte realmente significa. Para a garotada, pelo menos três sequências de esgrima coreografada ao melhor estilo ‘‘O Tigre e o Dragão’’ marcam este até certo ponto previsível casamento entre a Hong Kong das artes marciais e o tradicional capa-e-espada hollywoodiano – os duelos na torre, na taverna e na cozinha do rei.

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