Nijinski, o gênio da dança, que saiu dos palcos para morrer num hospício, em 1950, escreveu desesperadamente sobre a condição do criador, antes de alienar-se por completo. Essa personagem, rica e multifacetada, que conheceu a glória, a fama e o amargor de um mundo feito de pesadelos e solidão, estará em cena no 8º Festival de Teatro de Curitiba na pele do ator Luís Melo.
A peça ‘‘Nijinski’’ fará aqui sua estréia nacional. Ela é uma adaptação dos textos que o artista colocou no papel, em suas reflexões mais profundas e nem sempre devidamente organizadas. Esse legado ficou registrado em diversos cadernos, os quais o artista dividiu como sendo ‘‘Vida’’, ‘‘Morte’’, ‘‘Sentimento’’.
A montagem permite a Luís Melo empreender uma travessia pelo lúdico, além de um mergulho no processo de criação. ‘‘Há muito de delicadeza no universo das imagens, das sensações, dos insights de criação. É por este lado de Nijinski que quero trabalhar’’, explicou Melo, em entrevista concedida por telefone à Folha2.
O artista contou que o projeto chegou-lhe às mãos pelo destino. Tudo teve início em maio do ano passado, como um projeto de Rossella Pernova e Rubens Correia. A morte do ator interrompeu os planos, até reiniciar-se com a presença de Melo. ‘‘Foi um projeto deles que herdei’’, comentou.
Pela genialidade de sua arte, o russo Vaslav Nijinski, transformou-se em mito, numa espécie de personagem que está acima do bem e do mal. Mas se essa era a visão que o mundo tinha dele - e ainda guarda, numa doce ilusão - para muitos ela quebrou-se com a crueza que a vida lhe trouxe.
Luís Melo busca na interpretação justamente a essência do homem; aquela pulsação que fica entre as sombras do sofrimento e o brilho do sucesso. O artista que dançava dando a impressão de pairar no ar, carregava pesos e dramas - ele só conseguia domar a loucura, inoculada em si, através da arte. Quando esta lhe faltou, sobrou apenas o abismo.
A briga que ele teve com o amante, Sergei Diaghilev, e o fim do romance que mantinham, ajudou a abalar o mosaico emocional de Nijinski. Outro fator: a morte de um irmão num asilo. Aos 30 anos encerrava uma carreira brilhante e trágica.
Com fortes influências de Tolstoi e Dostoievski, o bailarino dava asas às vertigens fantasiosas. Passou a se denominar um ente como se fosse Deus; saía às ruas pregando a cristandade, ambicionando seguidores. Amigos impediam-lhe esses desatinos para salvaguardar a imagem do artista.
Foi aí que escreveu sobre a vida, a morte e o sentimento. Em dois meses e meio encheu três cadernos com seus discursos e pensamentos. Ao cabo disso, foi internado. ‘‘Uso Nijinski para falar de todos os outsiders, esses homens maravilhosos que nos servem de ponto de inspiração. Trabalho com o bufão, o palhaço de Deus’’, explica Melo.
‘‘Estou tirando todas as possibilidades do mito. Estou trabalhando com o homem; o mito Nijinski não está em cena; está a sua essência’’, completa. Diz o ator que o desejo do bailarino era mostrar ao público a dor da criação, ‘‘essa viagem, o êxtase que é muito mais que a droga’’.
Para Nijinski a morfina que lhe injetavam era a morte; não gostava dos remédios que lhe eram ministrados, nem dos efeitos decorrentes. ‘‘Eu trago esse universo do mito, essa grande surpresa’’, promete o ator. Confessando-se ‘‘encantado’’ com o trabalho, Luís Melo tem uma preocupação: quando subir ao palco no 8º Festival de Teatro de Curitiba, estar com a montagem a seu gosto.
‘‘Gostaria de estar mais tranquilo, mas estou atuando também como produtor deste espetáculo.’’ Dividido entre executivo e ator, tem se explorado ao extremo nos últimos tempos. ‘‘A minha luta é a de finalizar e concretizar a peça. Ela não pode ser abortada.’’
Esse amor contundente pela arte tinha Nijinski, que se inflamava ainda mais sob as influências socialistas de Dostoiesvki. Para o futuro ele guardava um olhar coberto de idealismo, conforme deixou escrito:
‘‘Quero comprar um teatro e dançar gratuitamente. Aqueles que quiserem pagar, aguardarão sua vez. Aqueles que não puderem pagar, formarão uma fila de espera, por amor. Eu quero uma fila de espera por amor.’’DivulgaçãoLuís Melo: trabalho no teatro será com o homem Nijinski e não com o mitoReproduçãoNijinski: mito do século 20, encerrou a carreira de forma trágica aos 30 anosZeca Corrêa Leite

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