No filme, a vida, o amor e Nova York
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quarta-feira, 27 de agosto de 2003
De Veneza 
Não se pode dizer que foi uma abertura cinematográfica em altíssimo astral, esta da 60 Mostra Internazionale d'Arte Cinematográfica de Veneza. ''Anything Else'', o novo Woody Allen que inaugurou ''hors concours'' o festival, causou certo estranhamento na platéia, acostumada a acordar cedo logo no primeiro dia da programação e encontrar aquele hilariante desdejum servido por Allen. Estranhamento pelo retorno do cineasta a um tom menos histriônico, depois da engraçadíssima sátira ''Dirigindo no Escuro'', abertura de Cannes ano passado e em lançamento agora no Brasil. E também por uma certa gravidade não pesada, claro, mas presente como subtexto em vários momentos, embora abrandada pelo humor.
Sem duvida é um filme pós 11 de setembro. Ainda que a história esteja centrada no triângulo tão caro ao autor a vida, o amor, Nova York , a carga de paranóia de que está investido o personagem de Allen não permite que o argumento seja, tão somente, agridoces invectivas acerca de encontros e desencontros afetivo-existenciais emoldurado pelos recortes mais líricos da megalópole. Entre sério e jocoso, Allen às vezes parece perder momentaneamente o senso de humor quando fala do holocausto, ou quando, na qualidade de mentor do perplexo candidato ao sucesso vivido por Jason Biggs, sugere a este um kit de segurança que inclui, entre outros apetrechos, um rifle carregado para se manter em casa. Ou ainda quando, tomado de fúria incontida e munido de uma chave de roda, destrói vidros e faróis do carro que há alguns minutos tomou a vaga que ele aguardava como outro argumento para a autodefesa, a intimidante agressão verbal e quase física que ele sofre dos dois imensos ocupantes do veículo.
O que tem cheiro de novidade e por esta leitura o filme é mais interessante e menos repetitivo do que parece é Allen justamente assumindo o papel de alguém mais velho e orientando uma espécie de Woody Allen mais jovem (o personagem de Biggs) com aquelas noções de neurótica e não resolvida experiência existencial. Com um adicional de tensão e periculosidade embutido no pacote. Aquelas velhas conversas dele com seus vários outros interlocutores no Central Park, ou no traçado urbano de NY, foram mantidas na forma, mas surgem agora aqui e ali alteradas de fundo. As neuras de sempre permanecem, mas a elas estão incorporadas algumas urgências, heranças óbvias de um novo tempo de tensões. É possível sim encontrar o mestre de sempre quando de novo decreta a falência reciclável da psicanálise, ou o descarte provisório de tumultuadas relações afetivas, ou ainda a verve pontiaguda de tiradas magistrais.
Dos exatos trinta minutos que durou a coletiva que celebrou a estréia em carne e osso do cineasta no Festival de Veneza, os primeiros dez foram de caos absoluto. Ninguém se entendeu, por conta de perguntas inaudíveis e respostas idem, inteiramente comprometidas pelos microfones de mesa e as caixas de som. Tímido por DNA, Allen pareceu ainda menos à vontade que de hábito. Abstraídos os caudalosos e nada proveitosos elogios dos coleguinhas, restaram duas respostas úteis. A primeira quando, estimulado por um tema que o seduz sempre, o diretor falou sobre as trilhas que fazem o background musical de suas histórias. E não deixou por menos: para ele, o que há de melhor na música americana foi composto entre 1900 e 1950, e que seu maior prazer depois de tudo filmado é sentar diante daquela fantástica galeria de clássicos e editar o material, saboreando gravação por gavação. Segundo quando foi, com elegância, mas justamente cobrado quanto à mudança de tom e de atitudes de seu personagem em ''Anything Else'', alguém que parece estar ''maior do que de costume''. O diretor disse que continua o mesmo ''homem pequeno e judeu'', mas em seguida foi mais longe e justificou as frequentes referências que o argumento faz ao status de judeu, ao nazismo e à paranóia mais explícita que assombra seu personagem. (C.E.L.J.)
O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge viajou a Veneza a convite do Festival.


