No estilo do mestre
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quarta-feira, 16 de julho de 1997
Telma Elorza Londrina 
Mario CesarHenrique Cazes é hoje um dos maiores divulgadores da obra de PixinguinhaEle foi um arranjador genial. Fazia, na cabeça, a parte de cada instrumento sem passar pela grade orquestral, coisa que é impossível para a maioria dos compositores e arranjadores. Com esta afirmação, o músico e arranjador Henrique Cazes mostra toda sua admiração pelo mestre Alfredo da Rocha Viana Filho, mais conhecido por Pixinguinha.
Admiração tal que já mereceu três CDs organizados por Cazes para homenagear um dos maiores compositores brasileiros. O último deles, Orquestra Pixinguinha, será lançado com uma roda de choro hoje, às 23 horas, no Empório Guimarães, em Londrina, dentro da programação artística do Festival de Música. A Rádio Universidade FM (107,9 Mhz) toca todo o CD Pixinguinha 100 anos hoje, às 21 horas, com reprise na sexta, às 14 horas.
A roda de choro terá a participação dos professores do FML Luiz Otávio Braga, Beto Cazes, Joel Nascimento e o próprio Henrique, além de outros convidados, também participantes do festival. Mas não retratará fielmente o disco, que foi gravado ano passado pelo grupo Orquestra Pixinguinha, com direção musical de Henrique Cazes. Será uma homenagem nossa ao centenário de Pixinguinha. Uma maneira de chamar a atenção para a obra dele, que permanece viva e que ainda não teve todo o reconhecimento que merece - diz o músico.
DivulgadorEle também vai contar histórias e passagens curiosas da vida do compositor sem, porém, cair na folclorização. Uma imagem que permanece na mente do público é a de uma foto que foi feita do Pixinguinha, sentado na cadeira de balanço e vestido com pijamas, dando-lhe um ar preguiçoso. Mas esta imagem foi armada, baseada numa foto de Louis Armstrong, e não corresponde à verdade - mostra.
Cazes é hoje um dos maiores divulgadores da obra de Pixinguinha, tanto tocando e dirigindo a Orquestra, como fazendo palestras sobre o compositor. Este CD é o resultado de uma pesquisa que o músico vem desenvolvendo desde 1987. Tudo resultou de uma briga que tive com um professor de música. Ele queria me ensinar arranjos pelo método americano e eu queria outra coisa. Então fui pesquisar e encontrei na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro edições de arranjos inéditos que Pixinguinha tinha feito de suas próprias composições. A pesquisa rendeu o CD Orquestra Brasília, lançado em 88, e este que lança hoje em Londrina, e que reúne arranjos originais datados de 1946 a 1951. Fui procurar os arranjos de Pixinguinha porque queria aprender e acabei fazendo um trabalho de resgate. Ainda vou escrever um livro, para que outros também possam aprender com a obra dele - diz.
Lado arranjadorSegundo Cazes, estes arranjos resultaram de um acordo entre Pixinguinha e o flautista Benedito Lacerda, uma pessoa com grande tino comercial. Lacerda era tão bom como empresário que chegou a ter um avião particular. Mesmo hoje dá para imaginar um músico com avião particular? - brinca. Cazes conta que o acordo entre os dois surgiu num período em que Pixinguinha passou por sérias dificuldades financeiras. Durante a Segunda Guerra, houve muita propaganda americana por aqui e o público passou a ver a música de Pixinguinha como ultrapassada, já que a moda eram as big bands - conta.
O acordo entre Pixinguinha e Lacerda estipulava que seriam uma dupla e uma série de composições de Pixinguinha passaram a ser assinadas pelos dois. Além disto, eles assinaram um contrato de gravação com a RCA Victor e de edições de choros pela Editora Vitali. Esta editora também foi a responsável pela edição destes arranjos inéditos - conta.
Segundo Cazes, os discos que lançou baseado nestas edições resgatam o lado arranjador de Pixinguinha. Tinha uma linguagem particular, confundida muitas vezes com simplicidade, mas que era muito sutil. Este seu lado é muito importante para a história porque foi o primeiro a criar a linguagem orquestral para a música popular brasileira - afirma.
Para Cazes, o gênio de Pixinguinha ainda não foi reconhecido como merece. Ele normalmente não fazia a grade orquestral, escrevia diretamente a partitura de cada instrumento. Como trabalhava com músicos que não liam música, acabava não escrevendo a base. Isto acaba prejudicando a reconstrução de sua sonoridade - explica.
Neste CD, a preocupação foi ser fiel ao estilo de Pixinguinha mesmo nas duas das 12 faixas que não são de sua autoria. São duas faixas que fiz o arranjo seguindo o estilo dele. Uma delas mostra um encontro imaginário entre Pixinguinha e Scott Joplin, mesclando maxixe com ragtime. A outra é uma homenagem a Pixinguinha como o maior arranjador de música carnavalesca de todos os tempos, sobre um pot-pourri de músicas de Braguinha - diz.
Os três CDs que prestam homenagens a Pixinguinha, organizados por Henrique Cazes, Orquestra Brasília, de 88; Sempre Pixinguinha, de 89; e Orquestra Pixinguinha estão sendo comercializados durante o FML, a R$ 15.
q Lançamento do CD Orquestra Pixinguinha e roda de choro - a partir das 23 horas, no Empório Guimarães (Rua Paraíba, 533, fone 337.0600).


