No encalço do humor
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segunda-feira, 07 de outubro de 2002
André Bernardo<br> TV Press 
Desde os tempos de ''Beto Rockfeller'', Luiz Gustavo se baseia num método peculiar para compor personagens. Quando recebe a sinopse de uma novela, ele inventa três ou quatro tipos e os apresenta para as crianças do condomínio em que mora em Itatiba, no interior de São Paulo. Foi assim que criou personagens inesquecíveis, como o detetive Mário Fofoca, de ''Elas por Elas'', e o estilista Victor Valentim, de ''Ti-ti-ti''. ''Enquanto a criança não acha graça, não fico satisfeito'', frisa.
Por conta disso, Luiz Gustavo acredita que o simpático Galileu, de ''O Beijo do Vampiro'', tem tudo para repetir o sucesso de seus antecessores. Mesmo assim, o início das gravações não foi dos mais fáceis. Desde ''O Mapa da Mina'', de 93, Luiz Gustavo não fazia uma novela. Nos últimos seis anos, se dedicou ao ''Sai de Baixo'', programa que criou com Daniel Filho. ''Nos primeiros dias, me senti um elefante de tão pesado. Hoje, mais pareço o Dumbo'', brinca, numa alusão ao paquiderme voador da Disney.
Do extinto humorístico da Globo, Luiz Gustavo guarda boas e más recordações. As boas dizem respeito ao ritmo de gravação. Durante seis anos, Luiz Gustavo só trabalhou uma vez por semana. Quanto às más, ele reconhece que não passava de um reles ''escada'' para outros integrantes do ''Sai de Baixo'', como Tom Cavalcante, Cláudia Jimenez e Miguel Falabella. ''Para mim, o programa não acrescentou nada. Eu apenas distribuía as bolas para eles marcarem os gols'', resmunga.
O que levou você a fazer ''O Beijo do Vampiro'' depois de quase dez anos longe das novelas?
Quando acabou o ''Sai de Baixo'', recebi convite sem parar. Já estava certo para fazer um espanhol em ''Esperança'', mas resolvi aceitar o convite do Marcos Paulo. Ele falou que eu ia arrebentar nesse papel. Sou pé-de-coelho mesmo. Mal a novela estreou e já estou sendo abordado nas ruas. As crianças, principalmente, acham o personagem muito divertido. E, quando as crianças soltam aquela gargalhada, o resto é lucro.
Mas o ibope de ''O Beijo do Vampiro'' está aquém do esperado. De que forma, a audiência interfere no desempenho do ator?
A novela ainda nem estreou direito e a Globo já começou a fazer pressão. Eles têm de esperar a poeira assentar primeiro. Da minha parte, a audiência não exerce influência nenhuma. Absolutamente. Nem tomo conhecimento dos números do ibope. Se a novela dá audiência, somos mais abordados na rua. Se dá pouca audiência, corre o risco de a novela ser encurtada. Mas não deixa de ser uma boa porque aí eu trabalho menos.
Você guarda algum tipo de mágoa do ''Sai de Baixo''?
Nenhuma. Pelo contrário. Sinto saudade de todos. Acontece que o ''Sai de Baixo'' não acrescentou nada na minha carreira. O próprio Vavá não é um dos meus personagens favoritos. Eu e a Aracy não fazíamos outra coisa senão segurar a onda do pessoal. A turma só queria saber de improvisar... Mesmo assim, o ''Sai de Baixo'' foi bom para todo mundo. Todos fizeram sucesso e ganharam dinheiro. A Marisa Orth, então, explodiu. Ninguém conhecia ela antes do programa.
Seria o mesmo efeito que a novela ''Beto Rockfeller'' representou na sua carreira?
Como diria o Boni, a história da tevê brasileira pode ser dividida em antes e depois do ''Beto Rockfeller''. Por causa da novela, passei a fazer parte dessa história. Entre outras coisas, ''Beto Rockfeller'' foi a primeira a gravar em locações. Se a gente gravava na Avenida Paulista, não precisava dizer que estava no Haiti. Não tinha enganação. Influenciamos tudo: do vocabulário à moda. O Brasil parou para assistir à novela.
Foi em ''Beto Rockfeller'', inclusive, que você fez o primeiro merchandising em novelas...
É verdade. Mas a Tupi também não pagava ninguém. O que eu podia fazer? Tinha de me virar por fora. Só a Engov me oferecia Cr$ 3 mil toda vez que anunciasse o produto. Num único dia, repeti Engov 35 vezes. Só quem não gostou da idéia foi a Alka Seltzer. Afinal, a empresa patrocinava o futebol da Tupi... Certo dia, o diretor comercial da emissora me chamou para conversar: ''Luiz, você não pode falar Engov. Tem de falar Alka Seltzer!''. ''A Alka Seltzer vai me pagar por isso?'', perguntei. ''Por quê? Você ganha para falar Engov?'', ele insistiu. ''É claro que não!'', respondi, com a cara mais cínica do mundo.


