Cidade da Guatemala - A porta do carro mal destrava e a indiazinha Lucrecia sorri, oferecendo uma boneca rústica, que mais parece a sua própria miniatura. ''São 5 quetzales, menos de US$ 1'', avisa. Esbaforida, dá novo preço: ''Três quetzales.'' A garotinha, de 8 anos, aceita contar um pouco de sua vida, diz que tem orgulho de ser livre. Lucrecia nasceu em 1996, ano em que seu país se livrou de 36 anos de guerra civil. De repente, ali, naquele vilarejo de Chichicastenango, após ter visto vulcões ativos, fantásticas ruínas maias e casarões coloniais, a imagem daquele país estava completa.
A Guatemala, no fundo, é como Lucrecia: aposta seu futuro no turismo, quer compartilhar sua riqueza cultural e prefere lembrar de suas raízes a lamentar suas cicatrizes recentes. Chegar à grande nação maia após 8 horas e meia de viagem é mergulhar numa profusão de cores, fé e cenários surpreendentes. É, sobretudo, se encantar com o seu povo receptivo, simples.
Entre o mar do Caribe e o Pacífico, este país da América Central é cortado pelas Serras Madre e dos Cuchumatanes e empipocado de vulcões: são 33, sendo cinco ativos. E bem ativos: o Pacaya, a 2.552 metros de altitude, cuspiu lava pela última vez há dois anos. Sistemas modernos anteciparam a erupção, ninguém se feriu e os fotógrafos fizeram a festa, de longe.
Quatro atrações são obrigatórias. A primeira é perder-se em Antigua Guatemala, recanto charmoso com ares de século 16. A segunda é voar para Tikal, subir em pirâmides de 57 metros e deixar o queixo cair frente ao suntuoso Gran Jaguar. Visite também o Lago Atitlán, que inspirou Aldous Huxley, e a fantástica feira de Chichicastenango.
Por atrações como essas a Guatemala foi o ''coração'' da civilização maia , desde 2001 o turismo já é a principal entrada de divisas no país, superando o café. A maioria dos visitantes vem de El Salvador, Estados Unidos e México. Não há dados precisos sobre o número de turistas brasileiros, mas há vôos diários para o país dos maias, com conexão no Panamá e escala na Nicarágua.
O esforço vale a pena. É possível avistar pássaros raros, praticar esportes radicais, partir para pescarias no Pacífico e se misturar aos estrangeiros e guatemaltecos em noitadas divertidas. Tudo numa república de 108 mil quilômetros quadrados, que pode ser atravessada de carro em oito horas. Por sua história política, ostenta dois prêmios Nobel: da Paz, ganho em 1992, pela líder indígena Rigoberta Manchú, e de Literatura, de 1967, do escritor Miguel Ángel Asturias.
Vivem ali 12 milhões de pessoas, sendo 60% maias. O espanhol é a língua oficial, mas nessa pequena nação há 23 línguas e dialetos, 21 de origem maia. Nessa mistura, as desigualdades às vezes saltam aos olhos. As roupas surradas de Juan Al, de 65 anos, que há 35 vende bananas e batatas fritas, destoa dos hotéis luxuosos da Zona 10, na capital. Mas ele não reclama, sorri. Acha que nos tempos da guerra a vida era pior. ''Aqui se vive tranquilo.''
O país da ''eterna primavera'', apelidado graças às temperaturas agradáveis, deve ser desvendado com calma e pode ser visitado o ano todo. O relevo acidentado faz variar bastante o clima e nos lugares altos o pico é o vulcão Tajumulco, a 4.220 metros a temperatura desaba.
Como o Brasil, a Guatemala se esforça pelo crescimento econômico. A jornalista guatemalteca Verônica Paz conta que, no ano passado, 912 mil pessoas se deslumbraram na sua terra. Para este ano, a meta é de 1 milhão de turistas. ''Estamos superando nossos problemas políticos'', desabafa. Oito anos depois do fim de uma sangrenta guerra civil, os visitantes desbravam a Guatemala e gente como a jovem índia Lucrecia pode sonhar. E ganhar seus quetzales em paz.

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