Kraw PenasHoje à noite, em Paranaguá, o estilista Ney Souza sai como destaque
vestido de Arlequim: ‘‘a figura mais carnavalesca que existe’’Ney Souza, estilista curitibano que em todo Carnaval atravessa as passarelas coberto de plumas, paetês, vidrilhos e lantejoulas, trocou a festa momesca do Rio de Janeiro por Paranaguá. Hoje à noite e na segunda-feira o folião será destaque da Escola de Samba Ponta do Caju. O tema da agremiação: ‘‘Ney Souza Carnavalesco - Paranᒒ.
A homenagem pegou-o de jeito. Emocionado com o tema e com o carro alegórico, onde será o destaque principal, acabou livrando-se - por obra e graça dos linguarudos - de uma surpresa que poderia ser maior que seu coração: a presença dos amigos que estarão reunidos numa única ala.
‘‘Não sei se daria certo. Sou muito chorão: choro vendo novela, vendo filme. Não sei se aguentaria encontrar todo mundo lá, por minha causa’’. Está vindo gente de São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Santa Catarina para encontrar-se com o pessoal de Curitiba e do interior, todos em torno de Ney.
Os organizadores cuidaram de tudo, não esqueceram nem daqueles companheiros dos tempos em que o estilista fazia televisão. Até mesmo amigos de infância marcaram presença. Cercado por tanto carinho, o cenário não poderia ser mais propício para as intenções do folião - este pode ser seu último Carnaval.
Ney Souza acenará ao público vestido de Arlequim. É uma fantasia que ele já tinha em seu acervo, mas foi a melhor tradução que encontrou para a festa. Explica: ‘‘Arlequim é a figura mais carnavalesca que existe, é uma das figuras poéticas do Carnaval’’.
Ney é dos tempos em que a festa momesca nos clubes ocupava quatro noites, além dos bailes infantis. Pierrôs, arlequins e colombinas misturavam-se nos salões e nas ruas com morcegos e marinheiros; o mundo parecia transformar-se num grande baile de máscaras. ‘‘O Carnaval está se acabando’’, constata.
Seu primeiro desfile foi no Clube Concórdia, em Curitiba, com a fantasia ‘‘Deuses do Arco-Íris’’. Estréia promissora: foi o primeiro colocado. Venceu o concurso promovido pelo Teatro Guaíra, no ano seguinte, com ‘‘Tocheiro Real’’. Em 1965 pisou pela primeira vez nas passarelas cariocas e em 66 foi o primeiro colocado no hotel Copacabana Palace.
‘‘Participei de todos os grandes bailes do Brasil: estive no Monte Líbano, Hotel Glória, Copacabana Palace, Teatro Municipal; desfilei de Porto Alegre a Manaus’’, conta com indisfarçável orgulho. Os troféus guardados em seu atelier, no 26º andar de um edifício no centro cidade, contam um pouco dessa história.
Somente no Rio foram cinco primeiros lugares. Curitiba, por não ter tradição nesta área, poucas vezes o viu em cena. Mas em 1975 Ney Souza criou o figurino da Sapolândia, escola campeã nesse ano. Doces lembranças, porque os concursos de fantasia, os grandes bailes tendem a desaparecer.
Em outros anos eles começavam às dez e terminavam ao amanhecer. Hoje, antes da meia-noite, o baile é uma quimera. Isso, nos poucos clubes que têm condições de bancar a orquestra e ainda recolher as taxas da SBAT (sociedade arrecadadora de direitos autorais).
O ser humano é títere da moda, ou de suas próprias invenções. O estilista diverte-se falando dos modismos que imperaram nas passarelas. Houve tempos, por exemplo, em que imperavam os grandes chapéus, por si só um espetáculo.
Depois foram as capas - enormes, abrigando bordados feitos de pedrarias. E assim, de moda em moda, chegou-se aos dias atuais. Agora tudo é para o alto: esparramam-se plumas na vertical, e para essa tendência Ney tem um palpite: como é que caberiam todas na Marquês de Sapucaí?
Para quem se dedica à criação e confecção de fantasias, o ano todo é um grande carnaval. Porque mal a pessoa deixa a passarela, começa a trabalhar nas peças do ano seguinte. Esses afazeres geralmente ocupam as horas que os foliões teriam para seu lazer.
Depois de desenhada a peça a primeira medida adotada é ir ao ferreiro para discutir com ele como tornar possível o trabalho. Sim, toda fantasia tem barras de ferro em sua estrutura. Mas como essas roupas viajam de lado a outro, não podem ser carregadas como um terno que saiu da lavanderia. O ferreiro terá que estudar a melhor maneira de desmontar o esqueleto.
‘‘Este é um trabalho de artista, é uma escultura’’, diz Ney Souza, sobre as fantasias. É diferente da costura convencional. ‘‘Noivas, mãe de noivas e madrinhas de noivas são sempre a mesma coisa. É a roupa normal. Agora, as fantasias, vão muito além. Elas são a grande criação, fazem você pirar’’.
Nem todos que se apresentam nos concursos desenham os trajes que estão usando. Muitos alugam as roupas. Ou encomendam a criação e execução. Ney trabalhou também para estes foliões. Mas como encerrou a carreira de estilista, hoje ele trabalha unicamente com locação de fantasias. Tem cerca de 1.500 peças em acervo, entre roupas e acessórios, destinadas ao aluguel.
‘‘O Carnaval mudou muito. O único que ainda continua bonito é o de Santa Catarina’’, avalia Souza. Com uma ponta de nostalgia evoca o perfume que havia nos antigos Carnavais - os ares eram tomados pela fragrância dos lança-perfumes que gelavam as costas das mulheres.
‘‘A música acabou. Ninguém mais se fantasia para ir aos bailes’’. Talvez seja a somatória de tudo que leve mais um folião a deixar a vez para os mais jovens na ilusão emocionada das pérolas e paetês.

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