NO CORAÇÃO DA ENTRESSAFRA
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de setembro de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para Folha 2 
Feitiço do Coração é um daqueles muitos filmes de típica linha de montagem hollywoodiana destinados a abastecer o mercado mundial, uma daquelas produções medianas calibradas sob medida para ocupar qualquer espaço nos circuitos mundiais, a qualquer tempo. Para o Brasil, é um dos muitos produtos americanos programados enquanto para períodos do ano enquanto não chegam os próximos anunciados blockbusters ou cabeças de lote. Estréiam por aqui a qualquer momento, manipulados por interesses de distribuidores e exibidores. Sem cerimônia, se instalam em salas onde poderiam estar, por exemplo, filmes como O Auto da Compadecida, em lançamento hoje apenas em cidades onde o cinema brasileiro consegue um pouco mais de oxigênio.
Não que Feitiço do Coração seja um filme desprezível. Não é. Pelo contrário: é uma comédia com temperinho dramático tão empenhada em ser charmosa que se torna difícil não achá-la pelo menos simpática. Bob (David Duchovny, que jamais vai escapar da sombra de X-Files) é uma espécie de mestre-de-obras tentando o possível e o impossível para redescobrir a alegria de viver após a morte da mulher (Joely Richardson) em acidente de carro. Enquanto isso, Grace (Minnie Driver),está em franca recuperação de um recente transplante cardíaco. O problema é que, na cabeça dela, a partir de agora nenhum homem vai se candidatar a uma mulher partida. É claro que Grace encontra Bob, e no restaurante do avô dela (Carrol OConnor, que rouba cada cena em que aparece e resulta, afinal, na razão mais convincente para comprar o ingresso; pode dar indicação para Oscar de coadjuvante). E não é que o novo coração que agora bate forte no peito dela pertencia à mulher de Bob ? Ela descobre antes dele, e hesita em revelar o histórico do transplante.
Quase em cem por cento dos casos, comédias do tipo funcionam melhor ou pior em função da química entre os dois atores principais. Quanto a isso, Return to Me está livre de problemas. Duchovny, em que pese um olhar às vezes perdido em busca de ETs e que tais do fundo do bau da série Arquivo X, parece de fato sincero e engraçado na sua composição. Minnie Driver igualmente se sai bem, em sua personagem sensível e frágil. E engraçada. O que compromete em termos o argumento é o recalcitrante clichê não-posso-revelar-a-verdade. Em histórias como Enquanto Você Dormia esta tática somente era utilizada porque sem ela não haveria filme. Aqui, o bom roteiro e a direção equilibrada de Bonnie Hunt dispensavam o artifício.
Apesar de certa morbidez nas cenas de abertura, Feitiço do Coração é delicado, tem doses de charme na medida e é hilariante boa parte do tempo. O que o torna, claro, entretenimento recomendável. Não espere um filme para a eternidade, mas prepare-se para uma boa diversão.


