A primeira geração de artistas nipo-brasileiros, como Manabu Mabe, Yokota, Wakabaiashi e Tomie Otahke, fazia do efeito visual a sua tradução entre o lugar de onde vieram, para estes trópicos cheios de luz e cor, quase como um deslumbramento. Pertencendo a uma tradição modernista de arte, criaram seus trabalhos, geralmente abstratos, usando como meio as técnicas e os suportes tradicionais tais como a pintura a óleo, sem muita preocupação com as questões conceituais contemporâneas.
Se é possível pensar a arte através de uma linha de desenvolvimento lógico, porque feita de incorporações estéticas e de novos experimentos e procedimentos, e visto que a própria questão social formula novos paradigmas a cada época, vamos encontrar em uma exposição de objetos na galeria do
Cine-Teatro Ouro Verde, em cartaz até o dia 4 de junho, sua mais perfeita tradu(i)ção. Trata-se das obras de Tânia Tokairin, uma artista brasileira, descendente de japoneses, que resgata uma questão colocada pela tradição da arte nipônica, que é o sentido do vazio, mas com características totalmente ligadas ao que se vem realizando agora no mundo. Em diálogo com gravuristas como Hiroshigue e Utamaro, por exemplo, que fazem parte da arte mais refinada produzida no Japão, o vazio para ela não quer dizer falta, mas o lugar criado para o descanso da nossa imaginação, para a simples contemplação, a não ação de que fala o Zen Budismo, o ponto exato da Iluminação. Onde ego algum poderá se manifestar. Daí então, sua razão.
As caixas vazias e quadriculadas no chão parecem bonsais de objetos negros dialogando com o cubo branco da sala de exposição. As três molduras empilhadas e repetidas em seu formato, desenho e cor, são tão impessoais que só a originalidade e a sensibilidade de um artista seria capaz de percebê-las como o óbvio e seu contrário, simultaneamente. O jogo de quadriculados insistentemente trabalhado nos objetos é a ponte que ela traça entre o ocidente e o oriente, pois o que acaba se revelando é justamente a incompletude formal da obra, levando nossa imaginação a preenchê-la. Deste modo deixamos de ser espectadores passivos de uma situação, para participarmos dela.
São objetos de feitura simples, esculturas que questionam e dialogam com o espaço de entorno, que formulam hipóteses, propõem relações e jogos como o cheio e o vazio, o dentro e o fora, que são questões caras à arte contemporânea. Ao mesmo tempo impregnadas de tradição. Obras que se oferecem para vermos além. Quem tiver olhos (puxados, ou não, mas abertos) que veja.
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