No compasso do zig zag
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de dezembro de 1996
Mauro Dias Agência Estado 
Gravado em Oslo para a gravadora norueguesa ECM e distribuído internacionalmente pela BMG, a partir dos Estados Unidos, acaba de chegar ao mercado brasileiro o novo disco de Egberto Gismonti, ZigZag - grafia adotada por ele para dar nome ao CD e à primeira das seis faixas em que toca violões de dez e 14 cordas e piano, acompanhado por Nando Carneiro (violão e sintetizador) e Zeca Assumpção (baixo). O caráter internacional do produto não interfere nada na obra: respira-se interior brasileiro - e só isso - nos quase 55 minutos de música de elaboração e execução complexas, características do autor.
A carreira de Egberto Amim Gismonti, um ex-aluno de Jacques Klein e Aurélio Silveira, teve início em 1968, quando classificou três músicas num festival da canção - entre elas O Sonho, que viraria título de disco e marca de seu primeiro grande sucesso popular. Preparava-se para ser - e poderia ter sido - uma brilhante estrela do piano clássico internacional. Não quis. No disco O Sonho demonstrava influências de Jimmy Webb, o último (e de carreira fugaz) compositor e arranjador (também letrista e regente) americano da linhagem dos clássicos populares. Mas O Sonho revelava também a personalidade impositiva do compositor e seu cuidado com a brasilidade, entendida no sentido vilalobiano.
Filho, sobrinho e neto de mestres de banda, Egberto, cada vez mais, preocupa-se em resgatar o sabor (menos do que especificidades de orquestração, elaboração, ou menções diretas) da trilha sonora da árvore genealógica. O êxito na empreitada tem sempre maior nitidez.
Respeito Mundialmente respeitado e com algo perto de uma centena de discos gravados, Egberto Gismonti conquistou o direito de fazer a música de sua preferência. ZigZag é (como os anteriores) um trabalho de pouquíssimo apelo comercial e de difícil classificação. Às vezes, é apontado como world music, ou new age music, mas são questões da indústria. O que Egberto faz é elaborar sobre cantos e toques interioranos, usando a sólida formação clássica para aprofundar a investigação. Nesse sentido, aproxima-se de Villa-Lobos, seu supremo exemplo.
As cirandas estilizadas de Mestiço & Caboclo são prova disso, e usam como referencial desde cantigas de roda e cantos nordestinos a música urbana do sul (há um sobressalto de Carinhoso e poucos compassos) e música impressionista européia ou - quem sabe - um e outro suspiro de Gershwin instalado entre um ponteio violeiro e um toque quaternário de toada.
A veia romântica, presente sempre em seus discos, vem na delicadíssima canção Um Anjo, que sola ao piano. Egberto é diatônico e não abre mão disso; sua elaboração é mais sutil do que a quebra de parâmetros harmônicos. Um Anjo trabalha sobre tempos mudos para sugerir uma valsa inexistente, um espírito de valsa que lhe é subjacente - é difícil reduzir música a palavras.
Oposto a Um Anjo, o veloz batuque Forrobodó recorre à escalas tonais que percorrem toda a obra do autor. Piano, baixo e sintetizador orquestram um meio de caminho entre Luís Gonzaga e Hermeto, de um lado, e Nazaré e Villa-Lobos no outro extremo.
Sobre todas as citações, estabelece-se a sintaxe egbertiana, peculiar, inconfundível, que faz de ZigZag mais um exemplo primoroso de o quanto é possível ser criativo e universal com os pés plantados na coerente história cultural, forma de alcançar o universo.


