Qual o primeiro instrumento musical da humanidade? E as melodias, como surgiram os ritmos? Talvez não seja possível desobrir como nasceu o discurso musical, mas uma das certezas a que os historiadores chegaram aponta a percussão como um dos primeiros recursos sonoros do homem. Toda a sua capacidade de expressar a melodia, o som, o ritmo, por meio de toques e batidas ordenadas levam a uma compreensão do real tão verdadeira quanto o caos sonoro que é retratado.
Essa paixão pela percussão poderá ser apreciada hoje pelo público londrinense, a partir das 10h30, no Cine-Teatro Ouro Verde, com entrada franca. O duo de percussionistas Marcello Casagrande e Luciano Zampar irão se apresentar dentro do Projeto Concertos Matinais 2001, iniciativa patrocinada pelo Consórcio União por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Os músicos irão mostrar um repertório minimalista, na linha de grandes compositores como o americano Phillip Glass, autor de trilhas sonoras famosas como a de ''Kundun'', filme de Martin Scorsese.
No repertório, ''Clapping Music'' e ''Nagoya Marimbas'', duas composições do americano Steve Reich; ''El Conde Espátula'', do espanhol Gabriel A. Videla; ''Rhythm Song'', do americano Paul Smadbeck; ''Rumores'', do paulista radicado na Alemanha Paulo Chagas; e ''O Romanesco Galo Cinza'', composição original de Luciano Zampar. Após a apresentação, os percussionistas prometem uma livre adaptação de ''Foot Prints'', do jazzista americano Wayne Shorter.
Apesar do grande sucesso da percussão brasileira nos últimos anos - só Naná Vasconcelos ganhou sete vezes o prêmio da revista Downbeat como melhor percussionista do mundo, os dois músicos londrinenses se sentem mais influenciados pela percussão internacional. ''Trabalhamos com uma evolução estética da música, uma composição que exige um ouvinte sensível e ao mesmo tempo uma audição estática'', explica Zampar.
Casagrande, integrante da Orquestra Sinfônica da UEL há oito anos, explica que há muita influência da música oriental na percussão minimalista, ''pois são idéias que se constróem aos poucos, com variações bem repetidas, seguindo o tempo do Oriente. Essa construção do ritmo, na verdade, é como se o Ocidente tentasse ler o Oriente''.
Entre os instrumentos utilizados pelo duo, há tambores, copos, vidros, sucatas, marimbas e o tombo. A marimba, uma espécie de protótipo do piano, é percutida com baquetas, em formato semelhante ao do xilofone. Começou a ser comercializada por volta de 1910, nos EUA. Ela será o grande atrativo de duas músicas: ''Nagoya Marimbas'' e ''Rhythm Song''.
Apesar de a percussão privilegiar o intérprete, não pense que o ritmo e a música são aleatórios, como muitas vezes ocorre em jam sessions. Os músicos utilizam o corpo, espátulas de pintura, instrumentos não usais, mas a lógica harmônica permanece na percussão.
Zampar, que irá apresentar sua composição original, ''O Romanesco Galo Cinza'', explica que essa obra é seu primeiro grande ensaio, se utilizando de elementos visuais de concertos que geralmente tiram a atenção do público, ''como tosses, flashes de máquina fotográfica, aplausos''. ''Uso armadilhas visuais tentando transformar o espectador em um ser ouvinte. Geralmente ele é apenas um observador.''
Outra curiosidade relacionada à percussão, é que seu reconhecimento é recente. Foi com o Classicismo que compositores como Johann Sebastian Bach começaram a incluir em seus escritos funções para instrumentos percussivos. Posteriormente, o Romantismo passou a intensificar a variação de alturas sonoras e, a partir do século XX, poucas orquestras sinfônicas abriram mão de percussionistas. Hoje no Brasil, desde escolas de samba até grupos de maracatu, todos se fundamentam em instrumentos que buscam unicamente percutir.
•Duo de Percussão - Marcello Casagrande e Luciano Zampar apresentação dentro do Projeto ''Concertos Matinais 2001''. Hoje, a partir das 10h30, no Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85), em Londrina. Entrada Franca. Patrocínio: Consórcio União e Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

mockup