No Cinema Novo, éramos todos românticos de Cuba
ReproduçãoFui ver os primeiros filmes da Mostra do Cinema Brasileiro, no Museu de Arte Moderna de Nova York e, entre gringos de boca aberta para nosso cinema, tive uma profunda saudade do bar da Líder. Vocês me perguntarão: que diabo é o bar da Líder? Eu respondo: o bar da Líder era a minha juventude.
Lá, na Rua Álvaro Ramos, em Botafogo, foi arquitetado, sonhado o Cinema Novo que, hoje, passa aqui, 30 anos depois, no MoMA. O Bar da Líder não era um bar; era um botequim tímido e pobre em frente ao Laboratório Líder, onde revelávamos e copiávamos nossos filmes. Tinha dois garçonzinhos; um espanhol quase anão e um cearense cafuso, que se esbugalhavam para nós, os jovens e folgados fundadores do Cinema Novo.
Hoje o bar (não vou lá há muito tempo) já virou uma acrílica lanchonete. Mas, deste tempo mágico, ficam as lembranças: as moscas no bico dos açucareiros, as cadeirinhas de madeira, os tampos de mármore, os chopes, os sanduíches de pernil, os ovos cozidos cor-de-rosa, a linguiça frita, o cafezinho em pé. E era ali, no meio desta coleção de insignificantes objetos brasileiros, era ali que traçávamos os planos para conquistar o mundo. Os cineastas cariocas de hoje se reúnem em torno da Conspiração, uma empresa de jovens talentos. Esse nome descrevia bem o que fazíamos em 67: conspirávamos. Conspirávamos contra o campo e contracampo, conspirávamos contra os travellings desnecessários, conspirávamos contra o happy end, contra a fórmula narrativa do cinema americano e, por uma estranha ilação, achávamos poeticamente que, se a língua de nossos filmes fosse diferente da língua oficial, estaríamos contribuindo para a salvação política do País. Claro, nossa câmera era um fuzil que, em vez de mandar balas, recolhia imagens do país para liberá-las nos olhos dos espectadores. Achávamos que, mostrando a realidade brasileira, misteriosamente, contribuíamos para mudá-la. Não sabíamos ainda que, assim como existia um modo de produção oficial (o capitalismo), havia também uma realidade oficial que resistiria a cores e ao vivo, com efeitos especiais e som estereofônico, ao ataque guerrilheiro das metáforas pobres. Não sabíamos que seria tão renitente a resistência da língua oficial. Não sabíamos ainda da barreira que fariam contra esta cândida exposição de verdades e injustiças. Não sabíamos ainda da bruta violência de Hollywood com seu embargo a nossos filmes, como havia o embargo contra Fidel. Nós éramos os românticos de Cuba. Nossas câmeras eram pobres, nossos filmes preto-e-branco, nosso som precário e, no entanto, a fome de mostrar o olho do boi morto, o mandacaru podre, as mãos brutas dos camponeses, a cara boçal da classe média, fazia-nos desprezar até o aperfeiçoamento técnico, numa espécie de mímica do cotidiano proletário. Transformamos nossas miséria em teoria, numa arte povera, onde a precariedade seria mais profunda que um reacionário progresso audiovisual. Lembro-me que o Glauber era contra o Nagra, o gravador suiço que surgiu nos 60. A gente não pode se alienar tecnologicamente, bradava o doce baiano no seu radicalismo, ali, de chinelo dentro do bar da Líder, sob o olhar perplexo do espanholzinho que servia chope. E nisto, hoje vejo, havia até uma ingênua verdade, pois o cinema moderno perdeu a magia de antes, porque quanto mais se aperfeiçoam as maneiras de penetrar na realidade, mais distante ela fica. Explico. Quanto mais se fazem descobertas, mais fundo é o túnel do mistério. A máquina do mundo quanto mais aberta, mais iluminada, mais fica vazia e misteriosa. A perfeição reprodutiva descreve bem o mundo, mas não o condena em poesia. Hoje, é imensa a quantidade de imagens que invadem nossas mentes e olhos. Tantas são, que se anulam. Tanta é a exposição da realidade do mundo, que não vemos nada. Diante dos perfeitos delírios digitais, estamos descobrindo que não há uma realidade que pare e se revele numa epifania, como um milagre da verdade total. A estética da fome de Glauber transformava nossa fome em nossa riqueza. Por isso, nossos filmes eram metáforas deles mesmos; na sua precariedade morava um retrato do Brasil ao avesso. Vejam a fome que ressurge entre os cinéfilos pelo cinema pobre como o iraniano, a alegria de ver a boa e velha realidade óbvia, sem efeitos sofisticados. Daí, nossa incrível esperança naqueles anos utópicos, daí nosso desprezo por dinheiro, pela caretice e pelo sucesso burguês; íamos aos festivais europeus como pracinhas, xingar os críticos franceses, atacar o velho mundo decadente que, por sinal, se encantou conosco através do Cahiers du Cinema e do Positif e nos pôs nas nuvens, culpados que se sentiam com nossa fulgurante miséria cheia de orgulho. Por isso, o bar da Líder de noite parecia aquele barzinho do Van Gogh, jorrando luz, com estrelas enormes girando no céu de Botafogo. Éramos assim em 1967. Com a invasão do primeiro mundo nos anos 70 para cá, (a realidade não pára) recauchutamos a antropologia de 1992 para racionalizar nossa crescente dependência diante das linguagens globais e, hoje, chegamos a um ponto onde a antropofagia já nos deu indigestão: estamos repletos de imagens muito mais velozes do que podemos processar. E o bar da Líder foi mudando. Mudou de dono, mudou as mesinhas de mármore para fórmica, mudou o balcão sujo para aço escovado, mudou o espanholzinho para uma máquina de fichinhas, a Líder mudou também daquela rua, sumiram os cineastas loucos, de cabelos revoltos e camisas de marinheiros. Mudou o Brasil, morreu o cinema com o Collor e agora renasceu, ainda pela metade. Mudou o cinema, mudei eu, mudaram alguns cineastas da esquina da Líder para outra vida (também não sabíamos do embargo da morte). E hoje, enquanto volto do cinema no MoMa de Nova York, vou pensando ali pela 6ª Avenida nos filmes que nasceram ali na Rua Álvaro Ramos, quase esquina com Rua da Passagem. Na saída da projeção, uns brasileiros me perguntaram: E aí? Quando vais voltar a fazer cinema? E eu: Sei lá, sei lá... o cinema ficou muito complicado, muito mercadológico, sem poesia, muito aporrinhante. E me deu uma profunda saudade do ovo cor-de-rosa que o espanholzinho me servia, em cima de um pedacinho de papel-de-pão, num pires de loça rachada, com um saleiro sujo do lado. Havia ali naquela precariedade, naquela vitrininha com linguiça frita, pastel e empadinha, havia, ali no açucareiro cheio de moscas, uma esperança, uma alegria selvagem que nunca mais senti na vida. Ali, naquele botequim, entre linguiça e o ovo cor-de-rosa, morava um sonho brasileiro que nunca se realizou.





