Nem a experiência de 37 anos na tevê permite que Juca de Oliveira perceba: ele está possuído pelo ''espírito'' do geneticista Augusto Albieri de ''O Clone''. Em suas vibrantes explanações sobre clonagem, Juca se comporta como um especialista, explicando o porquê de seu personagem ter quebrado as barreiras éticas e produzido o clone Léo na trama de Glória Perez. Para misturar ainda mais ficção e realidade, a empresa americana Advanced Cell Technology acaba de realizar a primeira clonagem de embriões humanos. Se não bastasse, o médico italiano Severino Antinori e a empresa canadense Clonaid disputam para apresentar o primeiro clone humano em questão de meses. A polêmica é propícia para reverberar ainda mais as atitudes de Albieri.
''A clonagem é a única maneira de salvar a humanidade da destruição'', acredita o ator.
Basta dar uma olhada no quarto de Juca em um flat do Rio de Janeiro para confirmar que ele está enfronhado no assunto genética. Sobre a escrivaninha, dois grossos livros: ''A Origem das Espécies e A Seleção Natural'', de Charles Darwin, e ''A Perigosa Idéia de Darwin'', de Daniel C. Dennett. Mas Juca garante que já tinha um interesse natural por Biologia. ''Sou caipira e moro há 25 anos na minha fazenda em Itapira, interior de São Paulo'', explica o ator de 66 anos.
Juca também não desgruda de seu moderno notebook. É onde ele escreve as peças de teatro. Na verdade, o ator se afastou da tevê em 1977, quando produziu a primeira peça, ''Baixa Sociedade'', e ganhou independência para escolher seus papéis nas novelas. Como autor, já levou pelo menos dois milhões de pessoas ao teatro para assistir a suas peças, como ''Caixa 2'', ''Meno Male'', ''Motel Paradiso'' e ''Qualquer Gato Vira Lata Tem a Vida Sexual Mais Saudável Que a Nossa''. ''Tenho um trato com os Deuses do teatro para sempre ter público'', explica, com ares de cientista maluco.
Assim como o Albieri, você é a favor da clonagem humana. Por quê?
Porque vivemos no epicentro da violência no mundo. A destrutividade humana máxima. Pessoas que se atiram bombas durante 30 anos, como os palestinos e judeus. Parece uma tragicomédia. A modernidade da Civilização, que pressupunha que melhorássemos como seres humanos, não funcionou. Pioramos bastante. Temos uma capacidade de destruição que não tínhamos antes. O tempo da barbárie era infinitamente melhor que hoje. O homem que nos originou não matava seres da mesma espécie sem razão. Então houve uma mutação genética provocada pelo homem. Nesta mutação, perdeu-se a solidariedade, o afeto e a generosidade. E não há outra solução para se reverter este quadro.

A clonagem poderia 'endireitar' o homem?
Mais do que isso. Atuar diretamente no DNA é a única possibilidade de reconduzir o homem às suas características genéticas normais. Todos os seres têm como objetivo fundamental a autopreservação e a perpetuação da espécie. Esse é o projeto de vida que perdemos. Grande parte de nós somos aberrações, porque estamos na contramão do que é biologicamente desejável à nossa preservação. Suicídios coletivos, por exemplo. O instinto da preservação humana é uma característica genética tão grande quanto o amor materno. Por isso, a clonagem é a única forma de resgatar características que o homem perdeu.

Quem você clonaria para iniciar este processo?
Oscar Niemayer, Orlando Villas-Boas e Darcy Ribeiro.

Uma das críticas contra a clonagem é que o homem estaria querendo se passar por Deus...
Isso é ignorância. O homem nunca ocupará o lugar de Deus. As religiões são interessantes porque tentam reconduzir o homem a um comportamento biológico normal. ''Não matarás'', seja por compaixão ou altruísmo, também é um mandamento da Biologia. Algumas espécies são altruístas a ponto de começar a berrar para que o predador a apanhe, enquanto a família escapa. Nós, homens, não temos mais isso. Os outros que se danem. Estamos num caminho de destrutividade total. Por isso, a clonagem é uma forma de você ter um indivíduo com características boas e, desse indivíduo, partir para outros. Se faz a mesma coisa com gado e carneiro. Com galinhas, há centenas de anos.

Você está lendo livros de genética e fez um seminário na Universidade de Pernambuco. Mesmo com a sua experiência, o Albieri é um personagem complexo de se interpretar?
Sem dúvida. Porque não é um vilão, que fica em oposição permanente. O Albieri é um personagem complexo e, por isso, delicioso de se fazer. Mas dá trabalho. Descobrir os filigramas da personalidade de um especialista em genética humana, puxa, é uma tarefa cabeluda. Não dá para interpretar sem saber do que se trata. É preciso estudar. Buscar a essência, a verdade, os objetivos...

Você ganhou o prêmio de ator coadjuvante em Gramado pela interpretação do cientista Ceresso em ''Bufo & Spallanzani''. O personagem do filme ajudou a interpretar o Albieri?
Ajudou. Mas ele tratava de sapos e também era ligado a um campo que conheço mais: a Botânica. Sou caipira, vivo em fazenda há 25 anos. Me interesso, principalmente, por etologia, que estuda o comportamento animal. Então, a novela é mais complicada para mim. Não pude estudar muito antes da estréia, pois excursionava com ''Caixa 2''. Então aproveitei que iria ficar três semanas em Pernambuco com a peça e procurei a Universidade Federal. A professora e PhD em genética humana, Aline Alexandrino, foi muito importante. A universidade faz clonagem higiênica e trabalhos com vírus e bactérias. Participei como leigo, junto com os estudantes.

Que tal a experiência?
Essencial. A trama da novela começou há 18 anos, quando não se tinha o conhecimento de hoje. Aprendi na universidade que pode haver má formação ou problemas psicológicos com um clone. O médico italiano Severino Antinori disse que está prestes a clonar uma pessoa. Como é proibido, deve acontecer em alto-mar. Então, vai nascer um clone e vamos saber como ele é. Na verdade, estamos iniciando este processo.

Você parece incorporado pelo personagem...
Olha, levar o personagem para casa após a gravação é uma deficiência técnica do intérprete. Se você tem um personagem com um problema emocional e passa a viver aquilo, pode-se cometer um desatino. É aquela história do Othelo enforcar a Desdemona. O diretor precisa alertar: ''Fulano, é uma atriz que está fazendo a Desdemona, calma''. Para mim, inclusive, laboratório é mais uma técnica para romper a barreira do ator e para desobstruir determinado canal para um jovem iniciante. Uma técnica como se fosse a psicanálise. Discuto com os atores principalmente as questões técnicas. E claro que me aprofundo na interpretação, mas não ao ponto de enforcar a Desdemona.

Você já é um autor consagrado no teatro. Não tem vontade de escrever uma novela?
Não. Porque não tenho capacidade para produzir 200 páginas por semana. Só datilografar este volume por semana já é um trabalho árduo. Imagina ter inspiração para produzir tudo isso e com qualidade. Tenho grande admiração pelos escritores de novela, que é um processo literário para excitar a fantasia das pessoas. É assim hoje, foi assim no Século XIX e até antes de Cristo. Na verdade, a novela, literatura, poesia e teatro têm sempre um objetivo de conjurar com os demônios e pactuar com os deuses.

Você interpreta o próprio texto em suas peças. É mais fácil?
Aprendi que escrever e representar são coisas diferentes. Cometi esse erro na primeira peça que escrevi, em 1977, chamada ''Baixa Sociedade''. Achei que estaria mais preparado. Foi uma das minhas piores atuações. Como autor trabalha-se em termos de síntese para sair de um macrocosmo para o microcosmo do personagem. Já o ator faz o caminho inverso para chegar ao mundo do autor. Por outro lado, escrever peças ajuda a entender melhor os autores de novela.

Colecionar tantos sucessos no teatro dá autonomia para você escolher papéis na tevê?
Mesmo como ator de teatro, já tinha uma certa independência. Na década de 60, quando fiz ''Dois na Gangorra'', de William Gibson, passei de coadjuvante para ator principal. Tenho até a presunção de dizer que, mesmo como ator de teatro, sempre tive público. Então faço televisão na medida que gosto das propostas e preciso aparecer para o público televisivo.

Isso muda toda a relação?
Muda na medida que sou o dono do meu nariz. Hoje, por exemplo, faço o Albieri. De repente eles poderiam ter me oferecido outro personagem e eu dizer que não queria. Mas se tivesse dentro da emissora, teria de fazer de qualquer jeito. Por isso, só fecho contrato por obra.

mockup