Nos últimos 12 anos não foram poucos os paranaenses que se abalaram até o Rio de Janeiro e São Paulo para ver os astros mais cobiçados do Free Jazz. Finalmente Curitiba entra no circuito, e apesar de ser uma rápida passagem - somente hoje e amanhã no Canal da Música - o evento deixa sua marca na vida cultural da cidade, com possibilidade de sediar as futuras edições.
Os cerca de 2 mil espectadores dessas duas noites terão a oportunidade de aplaudir Hermeto Pascoal, Dave Matthews, Wayne Shorter e Ben Harper. Para otimizar a excursão - os astros estão se dirigindo para a Argentina - os organizadores montaram o circo também em Porto Alegre, neste final de semana, com Ben Harper e Massive Attack que se apresentam hoje; Farofa Carioca e Jeff Beck nos shows de amanhã. O festival terminou ontem no Rio e se despede hoje de São Paulo.
A brasilidade inunda o palco do Canal da Música, com o primeiro cartaz desta noite. Hermeto Pascoal e Banda vêm para mostrar todas as suas bruxarias sonoras. Admirado por Miles Davis, Caetano Veloso, que cunhou o neologismo ‘‘hermetismos pascoais’’, e Guinga, que o compara a Charles Mingus (‘‘mas ele só tocava um instrumento; Hermeto toca todos’’), o alagoano nascido em Lagoa da Canoa, Arapiraca, tem mais de 2 mil composições.
DivulgaçãoDave Mathews Band: show, depois de Hermeto Pascoal, na primeira noite curitibana do Free JazzQuando começou a tocar, tirando as primeiras notas da sanfona do irmão José Neto, nos forrós e feiras, ninguém imaginaria que dali sairia um dos mais inquietos artistas nacionais. Antes de chegar ao Rio, em 1958, passou pelo Recife e Caruaru, acompanhando calouros em programas de rádio. Na antiga Capital Federal integrou o Regional de Pernambuco do Pandeiro; e os conjuntos do flautista Copinha e Fafá Lemos.
Já em São Paulo, com a bossa nova imperando nos ambientes mais nobres, fundou o Som Quatro e o Sambrasa Trio, ao lado do percussionista Airto Moreira. Mais tarde os dois estariam no Quarteto Novo, com Theo de Barros e Heraldo do Monte. A queixada de burro que Hermeto usava para acompanhar Geraldo Vandré em ‘‘Disparada’’ era uma cena à parte.
O tempo que passou nos Estados Unidos valeu para tocar e fazer arranjos para Miles Davis. A maneira um tanto extravagante, e particularíssima, de Davis mostrar admiração ficou registrada nas músicas ‘‘Igrejinha’’ e ‘‘Nem um Talvez’’ - o celebrado americano assinou as composições como sendo suas.
Outra atração de hoje é Dave Matthews, 32 anos, que não coloca fronteiras em sua música. Ele põe numa mesma sala o rock, folk, jazz e funk; convidou para seu último disco, ‘‘Before These Crowded Streets’’, cartazes disparatados como Alannis Morrissette, do folk/pop confessional ao erudito Kronus Quartet. A pronta aceitação dos artistas mostra como a cotação do moço anda em alta.
Daí a influente revista Spin tê-lo chamado de ‘‘o rei do rock’’, na edição de junho. O lançamento tirou do posto da parada de sucessos da revista Billboard, a trilha sonora de ‘‘Titanic’’. Este é o terceiro título da banda. O primeiro foi ‘‘Under the Table and Dreaming’’, em 94, acompanhado dois anos depois por ‘‘Crash’’.
Dave Matthews é do tipo alto-astral, que não dispensa imitações de alemães, britânicos e até de exilados brasileiros. Em 1990 formou seu grupo selecionando vizinhos de Charlottesville, como o saxofonista Leroi Moore, o baterista Caster Beauford e o violinista Boyd Linsley. Stefan Lessard foi indicado por um músico amigo.
‘‘Dave Matthews Band’’ começou pelo circuito noturno, aos poucos ampliou a área de atuação e, em muitos lugares, fitas pirateadas corriam de mão em mão antes mesmo dos astros chegarem para os shows. A banda atingiu marcas de 200 apresentações ao ano, antes de estrear em ‘‘Remember Two Things’’, produção independente de 1993. As 366 mil cópias vendidas sinalizaram que era chegada a hora, e os rapazes não deixaram o bonde passar incólume.
Ele é a lenda viva do jazz, e foi por sua causa, muito provavelmente, que o Canal da Música lotou mais cedo, sobrando ingressos apenas para o primeiro dia. Amanhã, a segunda noite do Free Jazz Festival abre com Wayne Shorter, o sax tenor e soprano, várias vezes premiado com o Grammy, o troféu mais importante da música americana.
Aos 65 anos ele é a grande referência de seu país. Durante cinco anos, entre 1958 e 1963, Shorter pertenceu ao ‘‘Jazz Messengers’’, do baterista Art Blakey, e de 1964 a 1970, ao grupo de Miles Davis, que reunia o pianista Herbie Hancock, o baixista Ron Carter e o baterista Tony Williams. Nesses tempos não só Davis mudava os rumos do jazz - Shorter também.
São dele composições como ‘‘Footprints’’, ‘‘Nefertiti’’, ‘‘ESP’’, ‘‘Dolores’’ e ‘‘Pinochio’’. ‘‘O mais influente compositor do jazz, alguém que trouxe para o gênero um vocabulário harmônico inteiramente novo’’, escreveu sobre o saxofonista o New York Times, há três anos, quando foi lançado ‘‘High Life’’, o primeiro disco solo do músico desde 1988.
Folk, blues ou o quê? O guitarrista Ben Harper está na encruzilhada desses ritmos, e suas respectivas ramificações, sem mergulhar em águas saudosas. ‘‘Não me interessa se você reproduz um velho lick de Robert Johnson ou toca igual a Muddy Waters. Jimi Hendrix não interpretava, ele tocava. Não se pode enganar o blues’’, diz o instrumentista, que se apresenta amanhã em Curitiba, sem meias palavras.
Seu som sai de uma guitarra acústica de colo Weissenborn, dos anos 20. O exemplar é raro - uma família que fabricava violinos produziu guitarras como esta durante sete anos, antes de largar a empreitada - e com ele o bluesman, dublê de skatista, 28 anos, se sintoniza no mundo. Costuma afirmar que só acredita naquilo que evolui. ‘‘Um monte de gente copia o que se fazia no passado e chama isso de tradição’’, dispara.
Com sua voz rascante e letras contundentes conquistou os ouvidos dos europeus, antes de ter o espaço que gostaria em sua própria terra. Só na França vendeu 100 mil discos, outros 50 mil na Itália. Mas dobrou os conterrâneos. ‘‘Ele redefine um papel familiar, o do sábbio afro-americano contador de histórias’’, estampou o New York Times. ‘‘Trata-se de um virtuoso com causa, sua mensagem é ao mesmo tempo verbo e música’’, frisou o Los Angeles Times. Chegou a hora dos brasileiros conferirem quem é.
Free Jazz Festival. Hoje e amanhã, às 21h30, no Canal da Música, Rua Júlio Perneta, 695, bairro das Mercês, Curitiba. Os ingressos aos preços de R$ 40,00 a R$ 20,00 estão esgotados.

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