Todo mundo estranhou quando Shirley Maclaine apareceu na TV, em 1987, no filme ‘‘Minhas Vidas’’, que contava suas descobertas espirituais. Seria apenas jogada de marketing? Nada disso. Mesmo com a crítica especializada de plantão, a atriz permaneceu firme no propósito de levantar esta bandeira. E foi esse passo que definitivamente deixou o nome da atriz associado aos movimentos da Nova Era. Depois de viver experiências místicas em Machu Picchu (Peru), na Grande Pirâmide de Gizé (Egito) - onde passou uma noite na Câmara do Rei -, na Índia, na Rússia e no Japão, Shirley empreendeu uma viagem ao tão falado Caminho de Santiago.
No Brasil, o lugar ficou famoso graças a outro escritor, Paulo Coelho, e mais uma dezena de personalidades, especialmente artistas. Entretanto, no passado, já trilharam o caminho nomes como São Francisco de Assis, Carlos Magno e reis da Espanha. Shirley conta que o que a impulsionou a investir nesta jornada foram, a princípio, duas cartas anônimas que recebeu quando esteve no Brasil, em 1991 e 1994. Quem a ajudou a organizar tudo foi Ana Sharp, sua amiga brasileira.
Trinta anos pesquisando temas relacionados à metafísica não foram suficientes para evitar surpresas. ‘‘Eu não estava preparada para o impacto que o Caminho teria em mim’’, confessa a atriz.
Pesquisando sobre o Caminho, Shirley descobriu que ele está localizado exatamente abaixo da Via-Láctea, seguindo linhas que refletem a energia dos sistemas estelares logo acima dele. Essa energia (prana, para os orientais), ou força vital, tem alta frequência. ‘‘Quando experimentada por uma consciência humana, conduz à clareza de pensamento, à experiência, memória e revelação’’, diz. ‘‘Isso pode ser perturbador e apavorante, porque significa que através dessa energia a pessoa se torna um ser mais mediúnico - para o melhor ou para o pior. As linhas carregam não apenas a energia espiritual da Terra em conjunção com a do Sol, mas também as energias conjuntas de outras galáxias e sistemas solares.’’ Estaria, então, explicado o que ocorre com os peregrinos?
Essa foi a busca de Shirley ao longo dos quase 800 quilômetros, desde Saint-Jean-Pied-de-Port, na França, através dos Pireneus, passando pelo norte da Espanha, até a catedral de Santiago de Compostela. Mais do que autoconhecimento, ela queria descobrir sua própria história. Os 30 dias da viagem, de fato, se desdobraram em séculos e em muitas vidas passadas. ‘‘Senti que estava voltando no tempo até um lugar que deu início às experiências que fizeram de mim e da raça humana o que nos tornamos hoje.’’
Ainda nos Pireneus, Shirley verificou que uma bolha se formara em seus pés. Indignada, começou a fazer um curativo quando sentiu que algo estava acontecendo. Segundo a atriz relembra, naquele momento recebeu uma mensagem angélica. Era o anjo Ariel que, garante, falava dentro da sua cabeça. ‘‘Não tenha medo de seu corpo físico. Aprenda a ter prazer ao vivenciá-lo. Sua jornada é para aprender isso. Fique em sintonia com a experiência e abandone sua determinação de atingir metas. O objetivo é o próprio caminho’’, teria dito o anjo. E esta não foi a única vez que o Ariel lhe falou durante o Caminho.
Uma das primeiras lições que Shirley teve foi a do tempo. Em suas meditações, e relembrando tudo o que já vivera, chegou à conclusão de que a dimensão temporal podia ser muito mais ampla do que se imagina. ‘‘Eu sentia que o tempo existia em mim, e não que eu existia no tempo’’, destaca. ‘‘Estaria eu, na verdade andando para trás rumo a um tempo que já existia em mim? ‘Sim’, pensei. ‘Já estive aqui’’’, concluiu.
Shirley teve sonhos reveladores desde o primeiro dia no Caminho. Afirmou também que podia se comunicar com a trilha que percorria e conversar com o seu cajado. Voltando no tempo, se viu como uma jovem moura que praticava a cura com ervas e que já estivera no Caminho antes. De volta à realidade, teve de driblar os percalços da fama, quando os jornalistas começaram a persegui-la.
Dia após dia, as vidas passadas de Shirley lhe eram reveladas, enquanto caminhava ou dormia. Numa delas, foi amante do rei Carlos Magno, com quem teve três filhos. De um destes momentos, Shirley revela a seguinte mensagem:
‘‘Lembre-se de que a trilha lhe permite relembrar quem é. Ao longo da estrada do tempo, você é o repositário de muitas experiências. Enquanto avança, vai de fato para dentro de si, o que você chamaria de voltar no tempo. Na verdade, está procurando viajar para frente até o princípio. Tenha coragem, porque todas as estradas levam ao começo. Você verá um pouco mais essa questão no devido momento. Por isso você deve percorrer sua estrada, fora do tempo, até que faça a volta simétrica da compreensão do que era antes. Todas as linhas voltam para o princípio.’’
O caminho também permitiu que Shirley encontrasse um de seus guias espirituais. Era John, o Escocês, que conversava com ela quase todos os dias. Com a ajuda de John, pôde ‘‘ver’’ outros mundos, como a Lemúria; e mergulhar no início da Criação. ‘‘Não posso negar que vivenciei esses eventos e ocorrências, mas também tenho consciência do quanto eles podem parecer chocantes e perturbadores para aqueles que ainda não contemplaram essas coisas’’, confirma.
Shirley salienta as dificuldades físicas que encontrou para perseguir seu objetivo de concluir a viagem. ‘‘Sempre que achava que não ia poder dar mais um passo por causa do calor, uma brisa se agitava ao redor e eu sentia como um presente de Deus’’. Aos 66 anos, caminhou cerca de 30 quilômetros por dia. ‘‘Meu corpo doía, mas eu me acostumara.’’ Dormiu quase sempre em albergues e comia o que lhe ofereciam nestes lugares, tomou banho de água fria e muita chuva. ‘‘Decidi que chegaria a Santiago de Compostela no dia 4 de julho. Faria o Caminho em 30 dias. Achava que aquilo significaria minha libertação como americana’’, observa.
Foi além, contudo. Caminhou de encontro à própria história e o que descobriu foi um mundo de verdades ocultas, tão evidentes e reais para ela que resultaram em mais uma obra: ‘‘O Caminho - Uma Jornada do Espírito’’.
Para os fãs da atriz, entrou no ar recentemente o site http//:www.shirleymaclaine.com. O endereço traz tudo sobre Shirley, do início da carreira às mudanças significativas em sua vida, como a que lhe projetou como escritora.

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