Interpretar o poderoso e amoral Evandro de "Babilônia" tem um sabor especial para Cássio Gabus Mendes. "É um personagem que confirma um momento novo na minha vida profissional. É muito estimulante quando, depois de tantos anos de carreira, a gente encontra novas possibilidades", valoriza. Na tevê desde o início dos anos 1980, a cara de bonzinho e o jeito "boa praça" acabaram por pautar boa parte da trajetória de Cássio em novelas icônicas como "Vale Tudo" e "Tieta". Os convites começaram a mudar em 2012, quando viveu o principal vilão da premiada "Lado a Lado". "As pessoas simplesmente não me viam como vilão. E eu acabava sem ter como provar que era capaz de fazer. Acho que envelhecer me deu uma imagem mais densa", teoriza o ator de 53 anos.
Filho do autor Cassiano Gabus Mendes e irmão do também ator Tato Gabus, Cássio começou a enveredar pelo mundo da teledramaturgia cedo. "Eu via meu pai escrever e achava tudo muito fascinante. Era impressionante a compreensão dele sobre a trama como um todo", relembra. A primeira fase de sua carreira é recheada de participações em novelas do pai, como "Elas Por Elas" e "Champagne". Mas aos poucos, foi seguindo por um caminho mais independente, em obras de autores como Aguinaldo Silva, Gilberto Braga, Glória Perez e Walther Negrão. Sem medo de trabalhar e fazendo valer seu contrato com a Globo, Cássio até hoje chega a se comprometer com dois trabalhos por ano, e ainda investe em uma frutífera carreira cinematográfica. "Não sei explicar muito bem a alegria de idealizar e desenvolver novos papéis", conta. No entanto, por conta das complexidades do empreiteiro corrupto que vive em "Babilônia", Cássio resolveu "puxar o freio". "Evandro me exige muita concentração e tem um número enorme de cenas. Até o segundo semestre, estou focado apenas na novela", garante.

ENTREVISTA

Em "Babilônia" você vive um poderoso empreiteiro metido em várias falcatruas. O viés atual do personagem ajuda no seu processo de trabalho?
Com certeza. E, nas primeiras conversas com a equipe, essa questão foi levantada. Gilberto é um autor sempre muito atual. E as pessoas que compõem esse projeto o acompanham nessa contemporaneidade. Tratar a realidade com naturalidade e uma certa lente de aumento é algo muito válido. Por ser um empreiteiro em um momento onde grandes empresas da construção civil são protagonistas de diversas investigações de corrupção, meu personagem carrega uma forte bandeira política dentro da trama. Isso é muito estimulante.

As inúmeras reportagens sobre a "máfia" das empreiteiras serviram como fonte de referência?
Nem precisei pesquisar muito (risos). Como qualquer brasileiro médio, acompanho as notícias espantado com o volume de denúncias e envolvidos. Não tenho nem como me inspirar em alguém próximo, pois não conheço ninguém que seja rico dessa forma tão faraônica. Então, as reportagens servem mesmo como fonte de inspiração para um estilo de vida que eu não imagino como deva ser. Mas o texto da novela já me dá informações certeiras. Com Gilberto é sempre assim, desde 1988, quando "Vale Tudo" foi ao ar.

"Vale Tudo", inclusive, foi sua primeira novela sob o texto do Gilberto. Você enxerga alguma ligação entre a novela de 1988 e "Babilônia"?
Eu penso em "Vale Tudo" e é possível traçar inúmeros paralelos com meu trabalho atual. Mas o que me deixa mais melancólico é constatar que pouca coisa mudou na sociedade e na política brasileira. Não é à toa que a novela marcou época. Agora, em "Babilônia", o público pode achar o texto forte e muito denso, mas as situações são altamente verossímeis e de fácil identificação. A preocupação do Evandro em ter alguma falcatrua descoberta é algo muito real (risos). É rico para a ficção, mas triste para a gente.

Além das coincidências no conteúdo, em "Babilônia" você também volta a atuar ao lado da Glória Pires. Como foi esse reencontro?
Assim como em "Vale Tudo", a personagem da Glória já chegou dando um golpe no meu personagem (risos). Acho que é um encontro que celebra nossa maturidade artística. Ambos começamos muito novos e fomos galgando nossas carreiras aos poucos. Já estivemos muitas vezes na mesma novela, às vezes, no mesmo núcleo, e isso construiu uma relação de muito carinho e respeito. Glória é daquelas atrizes generosas com quem está em cena. Todos entendemos que ela tem uma luz própria, mas ela é muito humilde com seu enorme talento.

O Evandro é seu terceiro vilão consecutivo depois do Líder Jorge de "Além do Horizonte" e do Bonifácio de "Lado a Lado". Você sente vontade de voltar a fazer algo mais cômico na tevê?
A carreira de qualquer ator é feita de fases. E devo admitir que estou adorando ser escalado para vilões tão diferentes em suas maldades, objetivos e frustrações. A fase de tipos cômicos ou mocinhos perdurou por, praticamente, quase toda a minha trajetória. Então, acho que é um momento muito bacana e frutífero. Tenho a impressão de que a idade fez autores e diretores me verem com outros olhos.

Você acha que a "cara" de "bom moço" o limitou?
Não chega a tanto. Mas a gente envelhece e as feições ganham mais densidade mesmo. Acho que hoje conseguem me ver em tipos mais diferentes, na pele do vilão, por exemplo. Mas ao longo da carreira, tive personagens bonzinhos de conflitos muito ricos, o Ricardo, de "Tieta", por exemplo, era de uma ambiguidade profunda, se debatia entre seus desejos e a religiosidade. Mais recentemente, interpretar o Chico Mendes em "Amazônia, de Galvez a Chico Mendes" garantiu muitas nuances também. Mas demorou para alguém me chamar para fazer o vilão com todas as características do tipo. E "Lado a Lado" se revelou como um momento muito importante para mim. Inaugurou uma nova etapa da minha carreira e foi um trabalho muito difícil.

Por quê?
Tudo era novidade. Nunca tinha feito um vilão, ainda mais no estilo do Bonifácio. Existe uma exigência física e uma concentração enorme para que a cena fique boa de verdade. E ainda era uma produção de época. Então tinha todo aquele tom diferenciado. Aí para finalizar, a novela ainda ganha um Emmy!

Você está na Globo há exatos 33 anos e já trabalhou com boa parte dos autores e núcleos de direção. Esse caminho diverso é uma busca sua ou acontece de forma natural?
Todo trabalho tem algo de bom para me oferecer. Seja um personagem interessante, a chance de trabalhar com tal diretor ou de reencontrar um autor que eu goste muito. Eu busco novidade, mas busco também manter certos laços. E da união disso nasce a construção de uma trajetória.

O fato de você ser filho do Cassiano Gabus Mendes, autor dos mais celebrados, o incentivou a buscar um caminho mais independente do sobrenome?
Mais que talento ou qualquer outra coisa, sempre me achei um ator de muita sorte. No entanto, só o talento ou a sorte não seriam capazes de me fazer chegar onde estou. Ser filho de quem sou sempre me encheu de orgulho. Amo cada trabalho que fiz com meu pai, novelas que são referências até hoje. Trabalhar com outros nomes dentro da emissora surgiu como uma coisa natural. Nunca quis fugir das minhas raízes.

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